CALA-TE! (Mc 4,35-41) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

barcoDesde o início de sua existência, o homem percebe que está envolvido por forças terríveis que o superam. A violência dos tornados, a inundação vertiginosa, a lava dos vulcões, o fragor dos terremotos – tudo inspira no ser humano um sentimento de fraqueza, de insegurança, de invalidez. Até mesmo a contemplação de uma noite estrelada, serena e calma, pode deixar o homem abismado diante do “silêncio eterno desses espaços infinitos”, como escreveu o filósofo francês.
Isto é bom para nós. Recorda-nos que não somos deuses. Somos apenas criaturas. Mesmo os mais fortes, decantados como heróis e semideuses, possuem o seu “tendão de Aquiles”, aquele ponto fraco que os torna igualmente vulneráveis diante dos imprevistos do caminho.
Foi esta a experiência dos discípulos bem no meio de uma tempestade que retorcia as águas do Lago de Genesaré. A velha barca se mostrava incontrolável. A água invadia o espaço interno, o desastre era iminente. Jesus? Dormia na popa, a cabeça apoiada na almofada usada pelos remadores.
Dormia mesmo? Seria possível mergulhar no sono quando tudo ameaçava mergulhar no fundo do abismo? Ou – prefiro acreditar nisso… – Jesus fingia dormir para testar a confiança de seu pequeno rebanho?
Até que eles já não suportam mais e, vencidos pelo medo, sacodem o Mestre, interpelando-o: “Não te importas que pereçamos?” Seria isto uma súplica? Ou uma acusação? Sabiam os discípulos que seu Mestre podia interferir no curso natural das coisas? Ou era puro desespero?
No mesmo instante, Jesus pronuncia um imperativo aos elementos desgovernados: “Cala-te! Emudece!” Faz-se grande bonança. E vem a advertência aos discípulos: “Por que tanto medo? Não tendes fé?”
Muitos comentaristas viram nesta passagem um ícone da “navegação” da Igreja ao longo dos séculos. Viriam sempre tempestades, ventos contrários, a impressão de desastre iminente. Mas aquele que dorme na popa – o Cristo Senhor – acabaria por intervir, mais cedo ou mais tarde, para serenar as revoluções exteriores e as agitações internas.
A barca de Pedro acaba de dobrar o limite de mais um milênio. Neste percurso, soçobraram civilizações e impérios, foram ao fundo culturas e organizações transnacionais. Mas a barca segue adiante, entre esperanças e temores, movida pelo vento do Espírito.
Só que o Senhor não dorme, como neste Evangelho… Ele está no leme, firme no timão. Já é tempo de deixar o medo e confiar em nosso Guia…

Orai sem cessar: “Senhor, vós sois abrigo contra a tempestade!” (Is 25, 4)

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