FILHO DE ADÃO, FILHO DE DEUS… (Lc 3,23-38) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança

genealogiaEis um Evangelho que costuma assustar muitos leitores: ele apresenta uma lista de nomes um tanto estranhos, com a ousada intenção de ligar o José de Nazaré ao Adão do Éden. Diferente de São Mateus, cujo Evangelho parte de Abraão até José, o evangelista Lucas – que escrevia para comunidades cristãs de origem gentia – estende a lista até o primeiro Adão, para demonstrar que a redenção trazida por Jesus incluía toda a humanidade, em uma visão universalista.
Notável a acuidade de São Gregório Magno, Papa, em uma de suas cartas, quando ele observa: “São Lucas, percorrendo em sentido inverso a ordem dos descendentes, chega ao começo do gênero humano, para mostrar que o primeiro e o último Adão têm a mesma natureza”.
Claro, o primeiro Adão foi o primeiro homem, que cooperou desastradamente para nossa degeneração; o último Adão foi Jesus, iniciador de um gênero humano regenerado. Entre os dois, uma natureza comum: nossa humanidade. É o suficiente para refutar as heresias que viam em Jesus apenas uma aparência humana, como entre os docetistas. O suficiente para fazer palpável a mais profunda solidariedade entre o Cordeiro sem mancha e os homens imersos no pecado.
Ninguém se espante, pois, se notar que entre os nomes listados nesta genealogia figuram lado a lado o trapaceiro Jacó e o adúltero Davi, pois o que está em questão é a irrupção do Filho de Deus na história e na cultura dos homens, com tudo o que ali se registra de luminoso e de tenebroso. Afinal, foi exatamente para um povo que andava nas trevas que se manifestou uma grande luz (cf. Is 9,1).
Esta genealogia lucana termina secamente: Jesus é “filho de Adão, filho de Deus”. Nascendo de mulher, é homem, filho de Adão. Entretanto, como não tem um pai humano, ele é também o Filho de Deus. Eis a base para a doutrina sobre Jesus, objeto da fé da Igreja desde os primórdios: uma Pessoa com duas naturezas, a divina, preexistente, e a humana, assumida na Encarnação.
Aliás, nos Evangelhos, quando fala de si mesmo, Jesus Cristo se compraz em apresentar-se como “o Filho do Homem”. Aquele que ergueu a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14) e sempre demonstrou que estava à vontade em nossa companhia. E exatamente por ter ele experimentado a nossa condição, é sempre sem limites a sua misericórdia para conosco (cf. Hb 2,14-18).
Fica fácil extrair a lição deste Evangelho: desde a Encarnação do Verbo, nós e o Filho de Deus pertencemos à mesma família.

Orai sem cessar: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei!” (Sl 2,7)

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