ASSIM FALOU RENATO RUSSO – Compilações de textos do artista Renato Manfredini Jr., extraídos de suas canções, por Anderson Dideco.

poetaQuero me encontrar, mas não sei onde estou. O mundo anda tão complicado. Será que ninguém vê o caos em que vivemos? A violência é tão fascinante, nossas vidas são tão normais: em vez de luz, tem tiroteio no fim do túnel. O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana. Não existe beleza na miséria, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui. Gostaria de não saber desses crimes atrozes. Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida. Na enfermaria, todos os doentes estão cantando sucessos populares: o caos segue em frente, com toda a calma do mundo. Quando as estrelas começarem a cair, me diz, pra onde é que a gente vai fugir? Não tenho medo do escuro – mas deixe as luzes acesas, agora.

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba? Eu sei – é tudo sem sentido: o que aconteceu ainda está por vir… Essa saudade que eu sinto de tudo o que eu ainda não vi… Fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. O que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém. Fiquei tanto tempo duvidando de mim… Hoje eu já sei que sou tudo o que preciso ser, não preciso me desculpar e nem te convencer. E não sei mais se é só questão de sorte.

Tudo está perdido – mas existem possibilidades. O que fizemos de nossas próprias vidas? Não acredito em nada além do que duvido. O tempo todo estou tentando me defender. Digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque, se você parar pra pensar, na verdade não há. Já estou cheio de me sentir vazio. Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que, depois, não use o que eu disse contra mim. Quem sabe, esquecer um pouco de tudo o que não sabemos. Hoje em dia, como é que se diz: ¨eu te amo¨?

Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. Entendo o seu problema, mas não posso resolver. Se afaste do abismo: faça do bom senso a nova ordem. O que tens é só teu e de nada vale fugir e não sentir mais nada. São as pequenas coisas que valem mais. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. Tudo é dor. E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor. Foi tudo por causa de um coração partido. Mas tudo bem. A vida continua e se entregar é uma bobagem. O maior segredo é não haver mistério algum.

Mas então porque eu finjo que acredito no que invento? Nos querem todos iguais. Assim é bem mais fácil nos controlar e mentir e matar o que eu tenho de melhor: a minha esperança. Os bons morrem jovens. Quando a tristeza é o ponto de partida e saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago, a escuridão ainda é pior que essa luz cinza. Sempre as mesmas desculpas. E desculpas nem sempre são sinceras – quase nunca são. Sei que às vezes uso palavras repetidas. Mas quais são as palavras que nunca são ditas?

Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance. Por que estou tão preocupado por estar tão preocupado assim? Meu coração é tão tosco e tão pobre. Não sabe ainda os caminhos do mundo. Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade. Eu quero um dia de sol num copo d’água. Quando a esperança está dispersa só a verdade me liberta. Não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido. Se a via-crúcis virou circo, estou aqui.

Mas estamos vivos ainda. Tenho ainda coração. Não sou escravo de ninguém: vou fugir dessa dor e nossos dias serão para sempre. O tempo é tudo o que somos. Que venha o fogo, então. Ninguém vai me dizer o que sentir. Quando tudo é solidão, é preciso acreditar num novo dia. O amor tem sempre a porta aberta. O infinito é realmente um dos deuses mais lindos e, depois do começo, o que vier vai começar a ser o fim.

Não vou me deixar embrutecer. Acredito nos meus ideais: não me entrego sem lutar. Não aprendi a me render. Meu espírito ninguém vai conseguir quebrar. Podem até maltratar meu coração: do ventre, nasce um novo coração. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás. O mundo começa agora. Apenas começamos.

 

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