APLAUSO VERBAL – O ELOGIO DO ELOGIO – Texto de Anderson Dideco

elogioHoje gostaria de pedir licença aos puristas para traçar o elogio do elogio.

Faço parte de uma realidade eclesial que – em sua talvez excessiva vontade de acertar e não desagradar a seu Senhor – tende a execrar o elogio, considerando-o uma prática condenável. Afinal, ao tecer loas aos cristãos, poderemos estar, mesmo sem querer, alimentando neles a tão indesejável soberba; tendo sido esta a causa de não poucas quedas em seres bem mais espirituais do que nós (pobres mortais que somos!), o quanto não será, portanto, necessário de nossa parte dela nos precavermos?

Peço permissão, no entanto (sabendo o risco que corro), para discordar dessa premissa.

Conheço bem os perigos do orgulho. Convivo com todos eles há tempo bastante para querer agora ignorá-los. Penso, porém, que exista um meio termo possível entre negar todo e qualquer elogio às pessoas e dar o justo reconhecimento a quem a ele tenha direito.

Considerando nossa sociedade, como ela se nos apresenta nestes tempos, de relações superficializadas, seja pela correria, seja pela indiferença (quando não ambas as coisas, que na verdade são causa e consequência uma da outra); nestes tempos, enfim, em que tudo conspira contra termos uma autoestima saudável, sem falta nem sobra, sem exageros mas também sem deficiência, compreendo ainda mais e melhor a importância de um elogio sincero, dado na hora e da maneira corretas.

Todo ser humano busca, em medidas diversas mas com igual intensidade, algum tipo de reconhecimento, tanto na família quanto no amor, no aspecto profissional ou pessoal, espiritual e humano. Todos queremos, de algum modo, ser lembrados mais por nossas qualidades do que por nossos defeitos.

Quando, porém, o mundo a nossa volta parece fazer questão de nos lembrar, a todo e qualquer momento, o quanto estamos “por fora” – fora dos padrões estéticos; fora da moda predominante; fora da classe privilegiada; fora do acesso às necessidades básicas; fora de soluções políticas e sociais satisfatórias; fora da capacitação mínima que espera o mercado de trabalho; fora dos louros acadêmicos; fora da prática ascética necessária a nosso desenvolvimento de espírito; fora da contrição dos pecados exigida para nossa salvação –, a quem iríamos apresentar a nossa admitida precariedade sem nos deixar abater num precipício de depressões e outras doenças psicoespirituais (e até psicossomáticas) daí decorrentes?

É neste contexto, de uma realidade tão massacrante, que exige tanto de nós sem nos dar retorno minimamente compensatório; em que nos deparamos constantemente com as nossas impossibilidades, que tanto nos oprimem; em que temos sempre diante dos olhos a (aparente, mas ainda sim incomodatícia) superioridade alheia; é para esta enfermidade, enfim, que pretendo oferecer o lenitivo do elogio.

Se tivéssemos a humildade e a delicadeza de perceber as capacidades e talentos uns dos outros e, de maneira simples e objetiva, fazer sinceros elogios aos seus dons – aqueles mesmos que reconhecemos, sem o peso da culpa, do remorso, da inveja ou do ciúme, que nós não temos –, talvez pudéssemos evitar muito sofrimento inútil aos nossos irmãos e, decerto, também a nós mesmos.

É certo que, o que fazemos de bom, não é de fato obra nossa, mas sim do Espírito de Deus: Ele sopra em nós desde o Batismo, impulsionando-nos à verdade, à beleza, à bondade propriamente dita, ou seja, a realizarmos todo o bem que o Senhor espera e deseja de nós e para o qual fomos criados, livrando-nos de nossa inclinação natural ao mal. É, sem dúvida, obra muito mais da Graça a nós infundida do que de nossa triste natureza afundada, decaída. Estamos bem conscientes disso; só que, convenhamos, excessivamente.

Ao elogiar, reconhecer, agradecer o bem e o belo de que o nosso irmão foi capaz (ou, vá lá, para o qual foi capacitado pela ação divina), não estaríamos louvando e bendizendo o divino Autor desta façanha? Não estaríamos, ainda que indiretamente, rendendo graças Àquele que tornou possível, ao pecador dito “incorrigível”, superar-se a si mesmo, transcender a sua própria miséria e fazer o que, a ele mesmo e a todos os demais, parecia improvável que conseguisse?

Quanta abnegação de mães e esposas, quantos esforços de pais e filhos, quantos sacrifícios de párocos e de fiéis ficam sem o devido agradecimento por medo de “perdermos a mão” e elogiarmos demais, causando mais mal do que bem? Quanto zelo de professores e alunos, de funcionários e patrões, quanta dedicação de ministérios, pastorais e coordenadores não são reconhecidos por receio de “estragarmos” a pessoa e, assim, danificarmos o empenho empreendido ou a mão de obra qualificada? Ou o quanto simplesmente “esquecemos” de enxergar o bem que nos causam os que convivem conosco, em nome de uma familiaridade que julga tornar dispensável o elogio, a gratidão?

E, por fim, quão rapidamente nos acostumamos a sermos criticados pelos nossos erros e pouquíssimo valorizados pelos nossos acertos que chegamos ao ponto de desmentir aqueles que, por acaso (por acaso não, por merecimento, a maior parte das vezes!), nos dirigem quaisquer elogios, por menores que sejam? “Que é isso… São seus olhos… Não sou tão bom assim… Se você convivesse comigo saberia…”, desculpamo-nos, num misto de falsa modéstia e medo de estar nos deixando levar por um ilícito auto engrandecimento.

Quero concluir este texto, que possivelmente já se alonga em demasia, com os dois maiores elogios de que tenho notícia. Ambos foram dirigidos a atores, em épocas distintas, como aplauso verbal por suas atuações reconhecidamente valorosas. Fúlvio Stefanini, à época da primeira versão da telenovela Gabriela, contou que ouviu do aclamado escritor Jorge Amado (autor do romance adaptado pela tevê) a seguinte avaliação de seu trabalho: “O seu Tonico Bastos é melhor do que o meu.”. Mais recentemente, o jovem ator Ícaro Silva, que vive Wilson Simonal no teatro (a peça é S’Imbora – O Musical, texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade, em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro) recebeu um abraço da viúva daquele artista, que veio de São Paulo especialmente para assisti-lo e, com o jovem nos braços, lhe teria dito: “Eu estava com muita saudade de você.”, identificando-o definitiva e afetivamente com o esposo falecido.

Sigamos estes dois generosos e carinhosos exemplos de quem sabe que valorizar o outro não é, de jeito algum, diminuir-se a si mesmo. Só sabe engrandecer os feitos dos outros quem tem consciência, não apenas de sua inevitável pequenez, que não os deixa suporem-se melhores do que ninguém, mas da possibilidade do sublime, da sublimação, que está aberta a cada ser humano. Abrirmos mão desse direito tem significado, a meu ver, deixar espaço para a celebração indevida de incontáveis nulidades travestidas de suposta importância, enquanto os gestos verdadeiramente dignos de admiração acabam sendo relegados ao injusto esquecimento e/ou ao deleite de poucos escolhidos.

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