PELO FIM DO “CULTO À APARÊNCIA” – Texto de Anderson Pereira Dideco.

boteroHá algum tempo que venho pensando em escrever um texto sobre este assunto. É que ando um bocado cansado desse insuportável “culto à aparência” que assola a nossa (já bastante cheia de mazelas) sociedade. Nem quero entrar no mérito dos padrões de beleza, uma vez que não me encaixo mesmo em nenhum deles, e a queixa não seria procedente.

Ultimamente, não encontro um amigo na rua que não venha comentar o quanto estou gordo. Em geral, pessoas que me conhecem dos últimos quinze anos, tempo em que estive mais ativo dentro da Igreja e – devido a jejuns que, hoje, considero excessivos e a certa participação espiritual na dor dos famintos que eu atendia através da Pastoral de Assistência Social – foi o período em que cheguei a pesar cinquenta e oito quilos; um assombro de magreza, em comparação com os oitenta e oito que pesava antes… O curioso é que os que conviveram comigo nos tempos de antes da conversão (quando eu era só um infeliz funcionário do Banco do Brasil) estranhavam mesmo era de me ver tão esquelético. Por aí se pode começar a ver a relatividade da questão.

Outra circunstância recente que me fez chegar ao texto foi a quantidade de zoação (sim, eu sei! Ela nunca tem fim…) que uma foto minha barbudo gerou, depois que a postei no perfil de uma das redes sociais de que participo.

Ora: dos meus (quase, completo no dia 25 do próximo mês) 45 anos de vida, fui gordo durante uns trinta, ou seja, dois terços de minha existência. As fotos de criança já o mostravam, e ainda estão por aí para testemunhar. Estar magro é que é a exceção! E tenho me apresentado barbado há já bastante tempo. Sou daqueles homens que sofrem de um cansaço antecipado só de pensar na possibilidade de fazer a barba todos os dias.

O que me incomoda é o seguinte: neste meio tempo, em que estive afastado destas pessoas que agora me reencontram, eu passei num concurso público municipal e comecei a atuar como Inspetor de Disciplina numa escola da rede pública, onde estou prestes a terminar o meu período probatório; tenho cursado (com excelente aproveitamento, diga-se!) a Faculdade de Letras da Estácio, e falta bem pouco para eu me formar em um (nem sei se feliz) professor de Português e Literatura do Ensino Fundamental e Médio; iniciei a postagem em redes sociais dos poemas que escrevo desde os 16 anos, e comecei um projeto (em setembro do ano passado) de poetizar sobre pinturas de artistas diversos, que até aqui me rendeu praticamente trezentos novos poemas, todos passíveis de serem vistos nas minhas páginas na rede; saí, afinal, da custódia familiar para arriscar-me a viver sozinho, arcando com as minhas responsabilidades financeiras como também com a tomada das minhas próprias decisões… Enfim, como se pode ver, um tempo altamente proveitoso, do ponto de vista intelectual e pessoal.

Entretanto, tudo o que as pessoas têm a falar comigo quando me veem é “o quanto estou gordo?”. E tudo o que têm a postar sobre uma foto minha são “piadas sobre a minha barba”? Façam-me o favor…

Confesso que ando enojado. A futilidade, a falta de assunto e de cultura das pessoas sempre me incomodou. Não é por acaso que optei por uma graduação na área de Humanas; é por supor que ainda valha a pena apresentar conteúdo de qualidade para as pessoas, uma vez que fica cada vez mais claro o quanto estão necessitadas disso. A cada dia que passa, ando mais sem paciência para lidar com mentalidades rasas: o desgaste resultante, este sim, é extremamente profundo.

Não é que nada disso me surpreenda. De um país que nega a seu povo o acesso à educação e cultura desde sempre, não se pode mesmo esperar grande coisa. E de um povo que engole, goela abaixo, esta pretensa música de baixa extração que frequenta atualmente os meios de comunicação, e que referenda determinados programas de televisão, a começar por certos ‘reality shows’, de ética no mínimo duvidosa, o que mais se pode esperar? De uma mídia que transforma em celebridades instantâneas quaisquer nulidades que tenham um derriére avantajado ou um par de bíceps acentuado, o que mais se pode querer? De uma sociedade que endeusa a juventude ao ponto de aceitar se deformar horrivelmente na inútil busca de eternizar algo que é, por si mesmo, efêmero; ou até correr o risco de morrer em mesas de cirurgia ou academias de ginásticas, no afã de obter o corpo que consideram ideal – não há mesmo nada mais que se possa obter.

De qualquer modo, é triste. Só não digo deprimente porque não sou eu que vou me deixar abater pela miserabilidade alheia – já me basta a minha, que me custa bastante administrar. Por que precisamos ser tão superficiais, no trato com o nosso semelhante, que não lhe conseguimos enxergar nada além de sua casca exterior? Por que temos de estar tão preocupados com o que nos apresenta a carcaça externa dos seres humanos, quando em seu interior seria possível descobrir (sim, apesar de tudo!) tanta coisa maravilhosa, sublime, surpreendente?

Que tal fazermos um propósito para este novo ano, de encontrarmos nossos amigos à rua e cumprimentá-los por suas conquistas profissionais, perguntarmos por seus anseios e sonhos, mostrarmo-nos curiosos por sua vida familiar, afetiva, espiritual – qualquer outra coisa que tenha a ver com a sua essência! – antes que os bombardearmos com impressões (que muitas vezes revelam nossos preconceitos, hein?) sobre a sua aparência?

Afinal de contas, esta não passa apenas e tão somente disso – aparências… E, como todos estamos fartos de saber, elas enganam. Sempre enganarão.

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