A VOZ QUE CLAMA NO DESERTO… (Lc 3,1-6) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

JOÃOCresce cada vez mais a impressão de que o mundo vai mal. Na linguagem profética de Isaías, há caminhos a serem endireitados, barreiras para rebaixar, montanhas para aplanar. Os mais pessimistas chegam a dizer que a situação não tem mais conserto…
Esta é opinião de quem vive no burburinho da cidade, entre buzinas e sirenes, mergulhado no redemoinho da TV e da Internet. Já aqueles que experimentam a paz e o silêncio do deserto – como João Batista – regressam de lá com a visão de que tudo pode ser refeito, renovado, restaurado. Mas isto exige uma conversão pessoal.
Não se trata de uma ação humana, derivada apenas do esforço ou do heroísmo, mas de um dom a receber: “e todos verão a salvação que vem de Deus” (Lc 3,6). Natural, acolher esta “salvação” implica abandonar os ídolos que fabricam a infeliz multidão de escravos que vivem mal e, de quebra, envenenam o próprio planeta.
João Batista, interrogado pelos fariseus, definiu a si mesmo como uma “voz que clama no deserto”. Hoje, muitos pais e educadores se sentem exatamente assim: vozes que parecem ressoar em vão, sem que ninguém ouça. No entanto, Jesus ensinou a importância de insistir na Palavra semeada, com a esperança de encontrar um terreno acolhedor, condição para a colheita abundante.
A exemplo de João Batista, uma voz profética aposta na esperança de um mundo novo, uma sociedade fraterna, um Reino de amor, sem, no entanto, abrir mão da denúncia do mal infiltrado profundamente no tecido da humanidade, em especial entre os poderosos deste mundo.
Talvez devamos inverter as coisas e “ler” a mensagem por outro ângulo. Não temer o deserto. Ao contrário, fabricar o deserto, isto é, “despovoar” a própria vida de todo o entulho que a torna opaca ao sopro do Espírito. Uma vez instaurado o deserto, logo virá o Vento divino com suas inspirações, sua onda curativa que renova o ser a partir do interior.
Preparar… endireitar… aterrar… rebaixar… aplanar… Eis todo um programa de vida anunciado por Isaías e experimentado por João. Ainda que o mundo trabalhe em sentido contrário. Fica o convite: buscar o deserto e, ali, encontrar o essencial…

Orai sem cessar: “O Senhor guiou seu povo no deserto…” (Sl 136,16)

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