AINDA NÃO TENDES FÉ? (Mc 4,35-41) -Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

marNos tempos modernos, os exegetas decidiram realçar o Jesus “histórico”, sua humanidade encarnada. Nada mal. Pena que nossa tendência é cair de um polo a outro, sem equilibrar as coisas. Com isso, acabou na penumbra a divindade de Jesus, como se verifica neste Evangelho. Acompanhemos Jean Valette em seu comentário:
“O episódio da tempestade acalmada, em Marcos, parece trabalho de uma testemunha dos fatos. É uma dessas passagens que podem confirmar a tradição segundo a qual o segundo Evangelho foi escrito com base nas recordações de Pedro.
A menção do travesseiro não se deve apenas à lembrança de Pedro. O sono relativamente confortável do Mestre contrasta ironicamente com a agitação das águas, e sobretudo a dos discípulos. A fé de que Jesus fala – e cuja ausência nos discípulos o espanta – é a fé em Deus, seu Pai. É ela que o habita até durante o sono.
É no poder do Pai que Jesus acreditou ao pronunciar a palavra para o mar. Jesus não apenas dispôs desse poder, ele teve fé. Pode-se dizer que Jesus, nesta cena da tempestade acalmada, se manifesta ao mesmo tempo como aquele que age com a soberania de Deus Criador, e como humilde crente que dá ao Pai toda a glória.
Lendo esta passagem da tempestade, não se pode evitar de pensar nos textos do Antigo Testamento, nos quais o mar é considerado como a potência temível e hostil que Deus submeteu, integrou no universo que ele criara, mas em relação à qual ele não relaxaria sua supervisão. Em função desses textos, ao pacificar a tempestade Jesus aparece em uma situação divina. De novo ele organiza um universo marcado e ameaçado pelo caos, e restabelece a ordem em um mundo criado. A vinda do Reino de Deus, no Evangelho e na pessoa de Jesus, não é nada menos que um recomeço da Criação.
O puxão de orelhas aos Doze assume a forma de espanto: “Por que tendes medo? Como ainda não tendes fé?!” Jesus não se surpreende com o fato de crermos. Aqui, ele reage em função da fé que é a sua, imediata, profunda e constante. Por isso é que este texto é uma revelação da fé de Jesus. Aqui nos encontramos na presença de um desses episódios do Evangelho que provavelmente desviamos de seu sentido, utilizando-os para despertar a fé do leitor ou do ouvinte. Se a fé deve nascer, será da contemplação da atitude de Jesus diante desses acontecimentos.”
Presenciando o milagre, os discípulos são tomados de um temor sagrado. Nós perdemos isso… Já não experimentamos a humilde reverência diante dos sinais do poder de Deus em nossa vida, banalizando tudo à escala do “natural”. E chegamos ao cúmulo de sorrir, ironicamente, diante dos humildes que têm fé…

Orai sem cessar: “Eu sei em quem acreditei…” (2Tm 1,12)

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