VEM PARA FORA! (Jo 11,1-45) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

lázaroLázaro, “nosso amigo”, dorme o sono da morte. Há quatro dias que está envolto em faixas e depositado na sombra da caverna. Poderia ainda acordar e contemplar os céus da Palestina? Ouvir de novo as cotovias? Aspirar os perfumes das montanhas de Sião? Que grito poderoso conseguiria despertá-lo do sono?

Somente a voz de Cristo, o Verbo da Vida, tem o poder de chamar os mortos para a vida. Uma vez rolada a pedra do sepulcro (Jo 11,39), é de Jesus Cristo o grito que chega aos ouvidos apagados do irmão de Marta e Maria: “Lázaro, vem para fora!” Ainda enrolado nas bandagens de linho, os pés atados, a face velada, o morto atende ao imperativo e sai…
Que grito é este, que chega aos ouvidos do morto e o resgata da morte? Para François Trévedy, é “o grito do despertador, o grito do parteiro, ou antes, da própria parturiente, pois Jesus solta aqui, como por substituição, o grito de nossa morte que se desfaz de nós. E, se o escutamos bem, existe um riso neste grito. Jesus chama ‘para fora’, isto é, ‘para si’. Jesus, este Irmão que nos chama para os irmãos, este Outro que areja, pela alteridade de todos os outros, o modo infernal de existir que fabricamos para nós mesmos: Jesus Cristo em pessoa é nosso grande Fora”.
De onde vem a morte? Virá do céu? Virá do inferno? Virá do Cosmo? Ou será que a morte já habita o coração humano desde a semente inicial? E a morte cresce quando o homem se fecha em si mesmo, trancado em sua íntima caverna, olhos fechados para o outro, pés atados que impedem seus passos na direção do Outro. Fechar-se é morrer…
É espantoso que nós demoremos tanto a perceber que nossa vida só começa quando morremos para nós mesmos. A vida começa quando é dada. Por isso mesmo, reflete Trévedy, “Lázaro poderá agora morrer a boa morte, talvez a do martírio, pois ‘os sumos sacerdotes decidiram matar também Lázaro’ (Jo 12,10). Não há mais nada a temer. A segunda morte (que é a boa) não tem poder sobre aqueles que Jesus, Palavra viva até o grito, libertou de todo redobramento sobre si mesmos. Somente aquele que permanece dobrado sobre si morre de má morte e se decompõe”.
Ficaremos surdos ao grito de Jesus? Um brado que ressoa do alto do Calvário e ecoa pelas quebradas do mundo até as infinitudes do Universo? Enquanto ficamos surdos, permanecemos na morte.
“E que diz o grito? Ele te chama pelo teu nome, chama teu nome para fora. E qual é teu nome? Escuta-o pela boca de teus irmãos que, talvez, o sabem melhor que tu mesmo quando, falando de ti, rezando por ti, chamam o Grito à tua própria cabeceira: ‘aquele que tu amas’.”
Se eu consinto neste nome, já estou curado. Estou vivo…

Orai sem cessar: “É a voz do meu amado!” (Ct 2,8)

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