É VERDADE QUE DEUS VOS DISSE? (Gn 3,1-8) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

pecadoNa figura mítica da serpente, oculta-se o astuto anjo rebelde, identificado como o “pai da mentira” (cf. Jo 8,44). Não seria ele o último sujeito a se preocupar com a verdade? Mas é exatamente em nome dela que o tentador se dirige à primeira mulher para atraí-la à desobediência.
Pobre Eva! São tantas as formas de desviar-se do caminho e decair! Uma delas – sempre atual! – consiste em demorar os olhos sobre a coisa proibida. Dizem os entendidos no humano psiquismo que a coisa proibida tem uma atração especial que a destaca de todas as demais permitidas. Por isso mesmo, quanto mais nós a fitamos, mais sua posse nos parece irresistível…
Outra situação prévia do desastre está em dialogar com o demônio. A serpente traz uma pergunta sobre a norma estabelecida pelo Criador. A mulher estende-se na resposta, demonstrando que tudo ouvira e entendera com clareza. A serpente, porém, a contesta, suscitando grave dúvida a respeito das intenções divinas. Deus seria realmente capaz de nos enganar? Desta maneira, é lançada uma semente de desconfiança no coração da criatura inocente.
Inocente? Sim, Eva é tão inocente, que não percebe o absurdo na isca que lhe é apresentada pela serpente do Éden. Não tanto o fruto em si (aliás, de onde será que tiraram a tal maçã, que não aparece na narrativa do Gênesis?), mas a hipótese temerária de “ser como Deus”.
Curiosamente, quando a Tradição relata a primitiva queda dos anjos rebeldes, ficou registrada a fulgurante resposta do arcanjo Miguel: “Quis ut Deus?” [Quem é como Deus?] Este arcanjo sabia muito bem da distância infinita entre o Criador e a criatura. Foi este conhecimento superior que o manteve fiel. Já a infeliz Eva, pobrezinha! A narrativa bíblica, ainda que enxuta, anota em detalhes as fases de sua conduta: viu… deixou-se atrair… desejou… colheu… comeu… compartilhou…
Eva é muito mais que um indivíduo do sexo feminino. Eva somos nós, a humanidade, que insiste em ignorar a própria fragilidade e alimenta no inconsciente os mais tresloucados anseios de deificação. Queremos voar, como Ícaro. Roubar o fogo do Olimpo, como Prometeu. Ter um filho com Vênus, como o inquieto Marte. Dificilmente reconhecemos nosso limiar humano. Daí nossa mania de “divinizar” os heróis que ultrapassam limites, ainda que seja uma simples onda do Havaí…
Que tal redefinir “pecado”? O impulso de ir além de nossa humanidade… Na rebeldia das crianças, na cupidez dos ladrões, na onipotência dos tiranos: eis nosso pecado original: a ilusão de ser como deuses…


Orai sem cessar:“Senhor, não ando atrás de coisas grandes…” (Sl 131,1)

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