NÃO É BOM… (Gn 2,18-25) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

criação2Conforme narra o Livro do Gênesis, a cada passo da criação, o Deus “poeta” contemplava sua obra e via que tudo era bom. Foi assim com a luz primordial. Foi assim com a água generosa e com a terra fértil. Fora assim também com os vegetais e os animais que se multiplicaram sobre o planeta.

Ao criar o homem, porém, Deus contemplou Adão e disse: “Não é bom… que o homem esteja só!” (Gn 2,18.) No seio da Trindade, as três Pessoas divinas viviam em família. Ora, criado à imagem de Deus, o homem não fora chamado à solidão. Daí a criação da mulher, na delicada imagem do Gênesis, quando ela é extraída “do lado do homem”, bem junto ao coração. E o jubiloso espanto de Adão: “Osso de meus ossos, carne de minha carne” – ao contemplar, pela primeira vez na Criação, a presença de um ser – o único! – com o qual podia entrar em comunhão.
No matrimônio, homem e mulher realizam uma profunda fusão de suas pessoas, definitiva, indissolúvel. Se, por infelicidade, vêm a separar-se, eles experimentam uma espécie de amputação do próprio ser. Como nos versos de Chico Buarque: “Ó metade amputada de mim!…”
Além de receber o sopro vital, o investimento da vida divina (cf. Gn 2,7), o ser humano recebeu do Criador as sementes de vida que permitiriam a fecundação e a propagação do gênero humano ao longo dos séculos. Nas palavras de João Paulo II, “com a criação do homem e da mulher à sua imagem e semelhança, Deus coroa e leva à perfeição a obra de suas mãos: Ele chama-os a uma participação especial do seu amor e do seu poder de Criador e de Pai, mediante uma cooperação livre e responsável deles na transmissão do dom da vida humana: Deus abençoou-os e disse-lhes: ‘crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra’”. (Familiaris Consortio, 28.)
Hoje, caminhamos na contramão. Neste início de milênio, os estudiosos da demografia já identificaram uma sensível redução na capacidade procriadora dos homens. A curva populacional é descendente em vastas regiões do planeta. Ao mesmo tempo, a indústria do aborto motiva e financia uma legislação assassina que resulta em milhões de vidas lançadas no lixo. Enquanto isso, Madre Teresa de Calcutá profetizava: “O mundo não terá a paz enquanto tantos abortos forem cometidos”.
Se a solidão humana não é algo bom, também não é bom que o amor entre homem e mulher seja desviado de sua função mais nobre, a geração da vida. Aliás, o que está em jogo é o futuro da humanidade.

Orai sem cessar: “Os filhos são um dom de Deus.” (Sl 127,3)

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