SAIU PARA UM LUGAR DESERTO… (Mc 1,29-39) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

desertoImerso em intensa vida missionária, Jesus acha tempo para rezar. Sujeito a intensa pressão, solicitado pela multidão, dividido entre amigos (os discípulos), inimigos (fariseus, saduceus, homens do Templo) e necessitados (cegos, surdos, paralíticos, enfermos…), Jesus procura o Pai no silêncio.
Bastaria o exemplo do Mestre para que não caíssemos na armadilha de uma vida hiperativa sem o correspondente equilíbrio da vida orante. Na prática, porém, quantos fracassos devidos ao excesso de confiança em si mesmo e à falta de apoio na graça de Deus! De modo geral, a figura de um fiel dedicado à oração – exatamente porque conta acima de tudo com as luzes e as forças de Deus – costuma ser tomada como imagem de fuga do mundo, descompromisso com a realidade ou, na expressão marxista assimilada pelos cristãos, “alienação”.
Traço típico da civilização ocidental, onde louvamos a eficiência e a produtividade, a ênfase na ação deriva de uma visão otimista de nós mesmos e da aposta quase exclusiva no resultado de nossas atividades. Um mestre do Oriente diria que nos falta uma dose de humildade…
Gerhard Tersteegen [1697-1769] reflete sobre este equilíbrio necessário:
“Se alguém é verdadeiramente chamado e enviado pelo Salvador para o serviço e o despertar do próximo, a vida ativa deve permanecer sempre submissa à vida contemplativa, e esta última deve permanecer como sua preocupação mais importante.
Quero dizer que esses discípulos não deveriam dedicar todo o tempo a agir, sair e falar, mas que também é necessário a tais apóstolos reunir-se frequentemente junto a Jesus para com ele se entreter e repousar um pouco em um local deserto (cf. Mc 6,30-31). Isto permite que o serviço da Palavra permaneça sempre ligado à perseverança na oração (cf. At 6,4) e a ela subordinado.
De modo geral, aliás, eles jamais deveriam entregar-se desmedidamente às relações e ao trabalho com o próximo, sob o risco de negligenciar a vigilância sobre si mesmos, ou deixá-la em segundo plano diante do ensinamento, e poderia ocorrer que, depois de terem pregado aos outros, sejam eles mesmos desqualificados (cf. 1Cor 9,27).”
Em plena agonia, sabendo que chegara sua hora extrema, Jesus convida os apóstolos a acompanhá-lo na oração. Pouco depois, ele volta e os encontra adormecidos. Ainda ressoa em nossos ouvidos a sua queixa dolorida: “Não pudestes vigiar uma hora comigo?!” (Mc 14,37) E advertiu seus seguidores: “Levantai-vos e orai para não cairdes em tentação”. (Lc 22,46)

Orai sem cessar: “Minha alma aguarda pelo Senhor
mais que as sentinelas pela aurora.” (Sl 130,6)

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