ALI ELE ORAVA… (Mc 1,29-39) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

ORARMal amanhece o dia, estão à procura de Jesus, sedentos de sua palavra e de seus ensinamentos. Mas ele passara a madrugada no deserto, na presença do Pai. Que teria o Filho a dizer aos homens se, antes, não tivesse ouvido a voz do Pai?
Estamos diante da permanente tensão entre uma vida de ação e uma vida de oração, que reciprocamente se completam e se alimentam: é a relação pessoal com Deus que permite ao cristão agir em favor da conversão e da salvação dos outros.
Sobre estas duas “vidas”, assim comenta Gerhard Tersteegen [1697-1769]: “Há um tempo em que as duas podem coexistir. Digo ‘há um tempo’, porque a mania imatura de querer instruir e converter faz parte do cristianismo da mesma maneira que a doença pertence ao corpo! E creio que é preciso fazer um bom pedaço de caminho com Jesus antes de poder ser admitido no círculo restrito dos apóstolos (cf. At 1,21-22). O próprio Filho de Deus – o que permanece um mistério – não se manteve escondido por trinta anos antes de começar sua vida pública ou ativa?”
Esta mesma proporção (30 anos x 3 anos) aponta para a necessidade de submeter a vida ativa à vida contemplativa. Hoje, temos excesso de “agentes” cansados e mergulhados na ação sem o equivalente tempo dedicado a escutar a Palavra que deveriam anunciar.
Tersteegen vai diante: “Quero dizer que os discípulos não deveriam ficar todo o tempo a agir, sair, falar, mas que é necessário que esses apóstolos se lembrem de reunir-se aos pés de Jesus para se entreterem com ele e repousar um pouco em lugar deserto (cf. Mc 6,30-31). Isto permite que o serviço da Palavra permaneça sempre vinculado à perseverança na oração (cf. At 6,4) e a ela subordinado”.
É próprio de uma sociedade de produção e consumo, um século de eficiência e resultados, valorizar os indivíduos ativos e produtivos. Esta mentalidade acaba por invadir o território eclesial. Mas trata-se de grave engano, pois a conversão dos corações não é produto do humano engenho, mas da divina Graça. Este engano está na base de numerosas defecções, tristes abandonos entre os ministros de Deus. Apoiados em si mesmos e em seus recursos, acabam por desanimar quando a colheita é magra…
Gerhard Tersteegen arremata: “Aliás, de modo geral, esses discípulos jamais deveriam entregar-se desmedidamente à relação e ao trabalho com o próximo, sob o risco de negligenciarem o ‘vigiai sobre vos mesmos’ (cf. Ti 4,16), ou de deixar esta vigilância abaixo do ensinamento, pois poderia ocorrer que, depois de ter pregado aos outros, sejam eles mesmos desqualificados (cf. 1Cor 9,27)”.
Pelo menos, nós fomos avisados…

Orai sem cessar: “Penso em Ti nas vigílias noturnas…” (Sl 63,7)

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