MINHA AMIGA “PERDEU A FÉ” – Texto de Anderson Dideco

caminhoUma amiga minha (descobri hoje) “perdeu a fé”. Seu casamento acabou, por uma série de situações que não convém esmiuçar no espaço deste texto, e ela resolveu culpar a Deus. Agora, além de se dizer não católica, acha por bem postar, numa rede social, todo tipo de frase ou pensamento politeísta e contrário à  mesma religião que antes dizia abraçar.

Esta situação mexe tremendamente comigo. Deixa-me, para dizer o mínimo, perplexo. Embora compreenda (ao menos, eu tento!) a sua dor, parece-me incoerente que alguém, no momento da maior dificuldade e fragilidade, resolva tomar o caminho inverso do da dependência e escolha a autossuficiência – como se não necessitasse do consolo e do conforto que só o colo de Deus nos pode oferecer.

Quando as circunstâncias fogem ao nosso controle, quando os planos de Deus parecem diferir radicalmente dos nossos, não será a hora de um maior abandono em Seus braços, de uma súplica intensificada ao Senhor? Não será a hora de compreendermos que nada podemos sem Seu Amor? E que este Amor está, na verdade, constantemente à nossa disposição, sejam quais forem as realidades (sobretudo as adversas) que enfrentemos?

Entretanto, assim como essa minha amiga, tantos outros que conheço: no momento em que a Cruz se apresentou em suas vidas, decidiram carregá-la sem Deus, prescindindo da fé. Sim, porque a nossa negação de Deus não diminui em nada o peso de nossos sofrimentos. Pela minha própria experiência, até os agrava.

A amargura, a revolta são, de fato, péssimas conselheiras. Movidos por sentimentos como estes, acabamos por nos deixar influenciar para o caminho do erro. Sem contar a profunda pretensão que esconde essa atitude: ao responsabilizar a Deus pelas dificuldades que devemos superar na vida, colocamo-nos acima d’Ele; como se tivéssemos  o direito de questionar Suas sábias decisões, que, na maior parte das vezes, são as únicas possíveis (e redentoras) diante de certas escolhas que fazemos, determinados rumos que tomamos em nossa história. Ele procura “endireitar” as veredas tortas que acabamos por trilhar e nós ainda nos insurgimos contra Seus desígnios!

O autor conhece o “final da história”; foi o que disse de si, certa vez, um escritor (não cristão) à revisora que queria discutir sua decisão de matar uma personagem no meio do romance. Com isso ele queria dizer que sabia onde desejava chegar, e que aquele indesejado drama era necessário para a conclusão da trama que desenvolvia.

Com muito mais propriedade, podemos dizer o mesmo a respeito do Onipotente que – como este título já Lhe atribui – tem todo o poder para tirar o bem daquilo que (a nossos olhos espiritualmente míopes) parece a princípio um mal. Se Ele permite qualquer situação, é porque sabe que dela nos advirá algum necessário dom que, sem essa vicissitude enfrentada e vencida, jamais obteríamos.

Será que minha amiga (e os demais que reagem à dor e ao sofrimento assim como ela) era, realmente, uma cristã? Porque o verdadeiro cristianismo se manifesta na hora da Cruz. Foi assim com os apóstolos – que também a rejeitaram, no início -; é assim desde sempre, por estes vinte séculos de Igreja Católica.

A fé, que alegamos por vezes ter perdido, é um dom de Deus que recebemos no Batismo; e sabemos por meio de São Paulo que “os dons de Deus são irrevogáveis”. Dessa maneira, como batizada que é, minha amiga não a pode ter perdido. Apenas não estará permitindo que esta conduza suas decisões, no momento.

Resta-me (resta-nos) entendê-la (entendê-los) – ainda que sem concordar – e continuar intercedendo junto a Deus (o mesmo a que renegam) para que seus corações se abrandem e comecem a empreender novamente o caminho da Redenção. Esta nos é oferecida gratuitamente pelo Pai através justamente da Paixão (leia-se: sofrimento) de Seu Filho, encarnado em nosso meio.

Que cada um de nós caia em si, entendendo que, se Ele, sem pecado, precisou/aceitou se submeter à dor e às humilhações, quanto mais nós as deveríamos assumir, em reparação de todo o mal de que somos capazes. Contra nós mesmos, contra o próximo e – por incrível que pareça – até contra Deus.

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