EIS O CORDEIRO DE DEUS! (Jo 1,29-34) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

ANDERSONUm gesto apenas, uma simples frase, e está cumprida a preciosa missão do Precursor: identificar diante dos homens de seu tempo Aquele que vinha como a vítima de Deus pela humanidade…
Para um judeu daquele tempo, a palavra “cordeiro” permanecia rica de ressonâncias. No presente, os cordeiros eram sacrificados sobre o altar do Templo, em rito de adoração ao Senhor Yahweh. No passado, um cordeiro (cf. Gn 22,13) dera a vida para que Isaac, o filho bem-amado, tivesse a vida preservada. Na noite da libertação, ao deixar o Egito, o povo de Israel fora preservado da incursão do Exterminador graças ao sangue de um cordeiro (cf. Ex 12,22-23) aspergido sobre as vergas dos portais. As marcas de sangue indicavam a proteção do Senhor sobre aquela família. Daí em diante, em cada Páscoa, um cordeiro sem mancha – tipo veterotestamentário do Messias – fazia-se presente à mesa de cada família judaica. Este era o Cordeiro Pascal.
Assim, para o primeiro Israel, dizer “cordeiro” era o mesmo que dizer “vitima”, “hóstia” a ser oferecida a Deus. O cordeiro é aquele que dá sua vida para que os outros não venham a perdê-la. Se, entretanto, por uma deriva que atingiu todo o inconsciente coletivo do povo escolhido, estavam à espera de um Messias vencedor, glorioso general libertador, não fora essa a imagem que Isaías lhes passara, ao retratar o Messias como um cordeiro mudo, que se deixa levar sem protestos até o matadouro. (Cf. Is 53,7.)
No célebre retábulo de Issenheim, em Colmar – hoje no museu de Unterlinden -, a pungente pintura de Matthias Grünewald retrata a Crucifixão de Jesus. À direita do espectador, em intencional anacronismo, está João Batista. De pé, o Precursor traz na mão esquerda o livro aberto da Palavra de Deus, do qual se irradia a luz que ilumina todo o quadro. Com a mão direita, ele aponta para o Crucificado. No fundo, a frase, em latim: “Importa que ele cresça, e eu diminua.” (Cf. Jo 3,30.) E aos pés do Batista, vê-se um alvíssimo cordeiro, de cujo peito aberto corre um fluxo de sangue recolhido em um cálice de ouro. Entre o cordeiro e Jesus, na cruz, um processo de identificação.
No fundo do retábulo, a noite escura. Uma espécie de mancha que se espalha e desvanece o cenário. E é no meio dessa noite que o Cordeiro de Deus nos vem trazer a vida e a salvação.
Como João Batista, nós somos chamados a apontar o Cristo para o mundo, a identificar Aquele que o mundo não conhece. Aceitaremos a missão?

Orai sem cessar: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo,
dai-nos a paz!” (da Liturgia Eucarística)

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