BAGAGEM – Poema de Saulo Soares, de Piraí.

bagagemTrago na bagagem a miragem do que ainda verei.

Uns olhos sedentos de um colírio que, em tempos de delírio, inventei.

Trago o que sei e o que não sei… ainda.

No bolso – o eu-moço – e uma mensagem indecifrável (e linda).

Trago, num largo poço do peito, um laço e um nó desfeito,

O verde da Amador e as andorinhas pousadas no fio.

Trago e os ofereço aos homens de toda a Terra,

Ao que acerta e ao que erra, as águas do meu rio.

Trago, de fato, a certeza de que em cada cidade

Habita um pouco de mim: (hei de encontrar-me inteiro!)

Trago um não, um sim,

A beleza de um setembro e o calor de um janeiro.

Trago a crença de que o mundo é um só

E de que todos somos irmãos.

Trago o pão que, partido, une,

Que não pune por ser diferente,

Trago pão que se faz gente,

Trago gente que se faz pão.

Trago a mim e meu solitário caminho,

Trago o meu mundo para o mundo todo,

E o mundo todo pro diário do meu ninho.

Em Piraí ou noutro lado do planeta,

Entoo minha opereta, meu canto diverso, profundo, vago e verdadeiro:

O mundo é minha casa e minha casa é o mundo inteiro.

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