TÚMULOS DISSIMULADOS… (Lc 11,42-46) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

sepulcro1Neste Evangelho, ao invectivar os fariseus de seu tempo, Jesus usa de tintas fortes para realçar o contraste (e a neurose!) entre uma aparência de piedade e um coração impiedoso. Como diz o povo mineiro, “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”…

A imagem utilizada pelo Rabi da Galileia – como de costume, extraída do cotidiano da Palestina – refere-se ao antigo hábito de caiar os túmulos para deixá-los bem visíveis. Assim, buscava-se evitar que alguém, inadvertidamente, viesse a se encostar em um deles e, em consequência, tornar-se ritualmente impuro, o que obrigaria o infrator a longos ritos de abluções e purificação por um período de sete dias (cf. Nm 19,16). Claro que, mesmo caiados e muito alvos por fora, o interior dos túmulos conservava a mesma podridão…

A intenção de Jesus é deixar bem claro que a religião de alguém não deve ser medida por gestos exteriores e picuinhas devocionais, que de nada hão de valer se o interior do homem não corresponder às atitudes externas. Ora, os fariseus da época costumavam gabar-se da mais estrita observância da Lei mosaica e dos 613 preceitos rabínicos, chegando a hipervalorizar pequenos detalhes legais, como o dízimo sobre as ervas e os temperos, muito além da exigência escrita. Ao mesmo tempo, esses homens “religiosos” eram capazes de explorar os mais pobres, como as viúvas sem proteção. É bem verdade que nossa época também conserva os seus fariseus…

Em resumo, Deus vê o coração, as intenções mais profundas do espírito humano. Simular devoção enquanto se alimenta um vício oculto merecerá a um de nós o mesmo rótulo citado por Jesus Cristo: sepulcros caiados. Uma pequena esmola não esconde nossa avareza. Atitudes polidas podem ocultar o ódio mais cego. Promessas de amor ocultam intenções devassas.

Pior ainda, quando o nome de Deus é usado como fonte de lucro e de espoliação dos mais pobres! Ou quando algum conhecimento teológico é utilizado para zombar da fé dos mais simples, tantas vezes feita a canivete, sem maior polimento!

Sem dúvida, Deus aprecia o homem virtuoso. Mas sabe muito bem que toda virtude é dom. Não é nosso esforço atlético que nos aproxima de Deus… Apenas buscamos corresponder a um amor infinito, derramado sobre todos, sem distinção.

Orai sem cessar: “No meu coração, conservo as tuas ordens!” (Sl 119,11)

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