MIGALHAS QUE CAEM DA MESA… (Mt 15,21-28) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

pao-do-ceu1Este Evangelho é um daqueles textos memoráveis que jamais chegaremos a esgotar em sua riqueza de significados. Este encontro de Jesus com a mulher cananeia nos fala de fé e de humildade, de amor pelos filhos, de diferenças étnicas e sociais. Mas fala também de… desperdício!
Em minha remota infância, um simples pedaço de pão caído ao chão disparava um tapa na orelha ou um doído beliscão: “Cata depressa! O pão é sagrado!” E a criança se apressava em recuperar o dom perdido. Bons tempos! Tempos em que a comida era escassa, mas sempre venerada como precioso dom de Deus.
Lembro-me de meu avô Giuseppe, já bem velhinho, ao final das refeições: com o miolo do pão, ele “enxugava” literalmente o prato, deixando-o limpo e brilhante. É que, após sete anos seguidos de guerra, longe de sua Itália – Campanha da Tripolitânia, Guerra Ítalo-turca e Primeira Guerra Mundial – vovô aprendera a aproveitar cada migalha da comida. Ele experimentara a falta do pão.
Bem, não é este o nosso caso, certo? Parece que nós vivemos tempos de vacas gordas, rebanhos numerosos, superprodução de grãos, hipermercados bem abastecidos. Dá até fastio! Natural que produzamos muitas migalhas, abundante lixo orgânico, comida desperdiçada. A gente acaba por se acostumar com a fartura…
Não é exatamente o caso de nossa vida eclesial neste início de milênio? Quanta fartura! Quanta abundância! Palavra de Deus. Eucaristia. Sacramentos. Grupos de oração. Retiros espirituais. Congressos. Reflexões na Internet. Pregadores na TV. Padres cantores. Traduções da Bíblia em centenas de idiomas. Turismo religioso. Nunca foi tão fácil ser cristão! Religião pra dar e vender…
De tudo isto, quanto cai no chão? Quanto se desperdiça do pão destinado aos filhos, mas que pode acabar na boca dos cachorrinhos? Ainda brota em nosso coração um sentimentozinho de gratidão pelo rico cardápio que o Senhor oferece aos filhos?
Em viagem missionária pela Transamazônica, vi a fome espiritual dos moradores do Pará. Em cada “folha” do seu território, uma capela de madeira. Nenhuma imagem de santo. Nenhum sacrário com o depósito eucarístico. Padre? Uma vez por semestre… uma vez por ano… E o povo ali reunido, todas as noites, em oração. Confesso: tive vergonha de mim…
Neste Evangelho, aquela mulher humilde foi agraciada com as “sobras” desperdiçadas pelos filhos da casa. E ela se deu por satisfeita com as migalhas recolhidas do solo. Jesus não pôde refrear a exclamação: “Mulher, é grande a tua fé! Assim como queres, te seja feito!”
Que faremos do Pão que Deus nos oferece?

Orai sem cessar: “O Senhor dá alimento a quem tem fome…” (Sl 146,7)

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