NÃO DESVIEI O ROSTO… (Is 50,4-7) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

domingo d ramosDurante a Semana Santa, a sagrada Liturgia oferece à nossa meditação alguns textos preciosos do Profeta Isaías. Aquela experiência histórica dos profetas, que inclui perseguições e morte, torna-se profecia da Paixão e Morte de Nosso Senhor.
De tal forma o Livro de Isaías está ligado ao Messias esperado por Israel, que muitos o consideram como um proto-Evangelho (um Evangelho que se antecipa aos Evangelhos do Novo Testamento).
Nesta passagem, falando em primeira pessoa, Isaías se identifica com Cristo, o discípulo perfeito do Pai, a quem ouve com ouvidos dóceis e coração atento, sem que nada o afaste de sua missão salvífica. Mesmo abalado em sua natureza humana, a ponto de suar sangue em sua agonia, no Getsêmani, Jesus foi adiante em seu sacrifício salvador, sem se desviar dos golpes, das ofensas, da cruz.
A Face que revelava o Pai foi alvo de golpes e cusparadas. O Rosto que Maria beijou foi esbofeteado pelo guarda do Sumo Sacerdote. Mas o Servo do Senhor não se esquivou. Apoiado no amor do Pai, Jesus não reluta diante do método escolhido para nos salvar. Ele não se rebela perante a dor e a humilhação. Se o pecado entrara no mundo por um ato de rebeldia e autonomia descabidas, a entrega de Jesus assume o caminho oposto, que Paulo define como despojamento e aniquilação (cf. Fl 2).
Mas podemos ler esta palavra de Isaías em um novo sentido. “Não desviar o rosto” é bem uma atitude típica de nosso Deus. Ele não fica indiferente diante de nossa dor. Ele não assume atitude neutra quando o mal nos atinge. Ele é o mesmo Deus que VÊ nossa aflição, OUVE nosso clamor, CONHECE nossos sofrimentos e, por isso, DESCE para nos salvar (cf. Ex 3,7ss).
Ao contrário, desviar o rosto de alguém que passa por nós seria sempre um gesto de repulsa, de fechamento do coração. Denota indiferença ou ruptura de relações. Os amigos se encaram, os apaixonados se beijam. A mãe se debruça sobre o berço e o olhar do bebê a contempla, face a face.
Na Semana Santa, mais que ficar comovidos diante das dores do Senhor Jesus, deveríamos sentir-nos impelidos a anunciar ao mundo inteiro que nosso Deus é Amor. Um Deus que se faz carne, convive conosco, senta-se à nossa mesa, palmilha nossas estradas, sem nunca se desviar de nós.
Depois do Calvário, tudo está mudado: a Humanidade sabe que não caminha mais sozinha…
Orai sem cessar: “Anunciarei vosso nome aos meus irmãos!” (Sl 22,23)
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