NÃO TENHO NINGUÉM… (Jo 5,1-16) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

paralíticoUm cenário dantesco! Uma piscina cercada de todas as misérias humanas: doentes, cegos, coxos, entrevados. Todos à espera de uma agitação nas águas, o sinal de que o Anjo de Deus ali chegara. O primeiro a entrar na piscina obtinha a cura. E isto só ocorria “de tempos em tempos”, como algo excepcional. Como se vê, o clima típico da Antiga Aliança: a graça rara, parcamente distribuída…
Um dos enfermos ali presentes sofria de seu mal há 38 anos. Os especialistas no judaísmo veem nessa cota (38) o símbolo da imperfeição, da coisa incompleta, em oposição ao número 40, medida de uma experiência completa, com início, meio e fim. Tal como os 40 dias do dilúvio, os 40 anos de caminhada pelo deserto, os 40 dias que Jesus jejuou no deserto. E Jesus comparece para levar o imperfeito à perfeição, curando o enfermo e completando a sua cota.
Mas não antes de acontecer o pungente diálogo entre o Rabi da Galileia e o homem abandonado a seu mal. Diante da pergunta de Jesus – “Queres ficar são?” -, o pobre responde com sua miséria: “Não tenho ninguém que me lance na piscina, quando a água se agitar; e enquanto vou, outro desce antes de mim.”
A frase desse homem cabe a milhões de habitantes de nosso planeta. Milhões aos quais é negada a oportunidade do primeiro lugar. Gente que se apresenta sempre que o banquete acabou. Nem as migalhas sobram para eles… Mas nem todos ficam sempre surdos a esse clamor!
Aqui e ali, inesperadamente, alguém ouve o mesmo grito – “Não tenho ninguém!” – e sente o coração rasgar-se, dispondo-se a amar aqueles que ninguém ama. E não falo apenas de Teresa de Calcutá entre mendigos, nem de Damião de Molokai entre leprosos. Não penso apenas em Dom Orione com seus moleques de rua, nem no Dr. Schweitzer com seus nativos congoleses.
Penso na multidão anônima de cristãos e não cristãos que decidiram amorosamente orientar a sua vida para aquele que não tem ninguém. Jovens das comunidades novas a evangelizar os moradores de rua… Mocinhas de família rica que abrem mão de ter uma família própria para cuidar das crianças do orfanato… Leigos que invadem o inferno humano das penitenciárias para ali plantar uma sementinha do Evangelho… Os médicos que socorreram as vítimas do Ebola e… morreram com eles…
Nem todos são surdos. Nem todos são cegos. Nem todos são indiferentes. Ainda há gente que tem coração…

Orai sem cessar: “Eis-me aqui!” (Gn 22,1)
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