PARA SERDES FILHOS… (Mt 5,43-48) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

perdãoDeus é amor (1Jo 4,16b). Esta é a definição que nos foi transmitida pelo discípulo amado. Em Deus não habita o ódio nem se aninham projetos de vingança. Jesus Cristo, o Filho de Deus, do alto de sua cruz implorava ao Pai por seus algozes: “Pai, perdoai-lhes; eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34.) E o primeiro mártir da Igreja, o diácono Estêvão, enquanto sofria o apedrejamento, intercedia por seus assassinos: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado!” (At 7,60.)
Naturalmente, quando há rixas e disputas entre os filhos, os pais sofrem com isso. A Bíblia está cheia de exemplos de tais sofrimentos. Adão e Eva diante do homicídio de Abel cometido pelo irmão Caim. Isaac e Rebeca perante a hostilidade entre Esaú e Jacó. O Rei Davi, vendo a filha Tamar violada pelo meio-irmão Amnon e, a seguir, a vingança de Absalão, que assassina o meio-irmão Amnon. É uma dor incalculável assistir ao ódio entre os próprios filhos…
Ora, nosso Deus é Pai de todos nós. Se alimentamos ódio uns contra os outros, ferimos o coração do Pai. Daí a frase de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus…” Trata-se, pois, de uma condição essencial para manter com Deus a nossa relação filial.
Quando Davi recebeu a notícia de que seu filho rebelde, Absalão, fora morto, o Rei se lamentou: “Meu filho, Absalão, meu filho, meu filho! Por que não morri eu em teu lugar?” (2Sm 19,1.) Ora, O Pai foi muito além: entregou-nos seu Filho, Jesus, que morreu em nosso lugar. Depois disso, já não há ofensa tão grande que não devamos perdoar… O sangue de Jesus clama pelo perdão entre os filhos de Deus.
Claro, a simples ideia de “perdão” é estranha ao mundo pagão. Em artigo na Folha de S.P. [02/02/06], Contardo Calligaris escrevia: “A Igreja Católica, quando instituiu o arrependimento e a penitência como condições da confissão, inventou um dispositivo extraordinariamente permissivo. Posso pecar quanto eu quiser, pois já me arrependo, sinto-me culpado, sofro e meu sofrimento me remirá”.
Notável incapacidade (ignorância?) do pagão em ter acesso à misericórdia! Não é o nosso sofrimento que nos vai remir, mas o sofrimento de Cristo na cruz é que nos garantiu (antecipadamente, sim!) o perdão do Pai. Um sacramento do perdão nos foi dado por Deus (não é invenção da Igreja!) para tornar possível a reconciliação não só com o Pai, mas também entre os irmãos.
Afinal, ainda somos filhos?

Orai sem cessar: “Ao Senhor pertence a misericórdia e o perdão.” (Dn 9,9)

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