COISAS QUE EU SEI SOBRE O PADRE QUINHA – Texto de Anderson Dideco

quinhaNão quero deixar passar em branco a triste notícia do falecimento do nosso amado sacerdote, o Padre José Carlos Medeiros Nunes, mais conhecido como o Padre Quinha, sem também tecer algumas considerações sobre a sua pessoa e a sua personalidade. Antes que uma presunçosa análise de seus méritos sacerdotais (que nem sou gabaritado para tanto) ou uma redundante apreciação de suas qualidades humanas, a todos bastante notórias, reservo-me a alegria de poder contar algumas breves (mas, a meu ver, relevantes e reveladoras) situações envolvendo esse homem de Deus e que tive o privilégio de vivenciar e/ou presenciar.

Conheci o Padre Quinha em meu primeiro retiro de espiritualidade, o “Discipulado”, em 1997. O curso era então ministrado no Sítio do Seminário, em Secretário, e me lembro com exatidão: foi pelas mãos deste sacerdote que experimentei as primeiras graças de um “passeio” do Santíssimo. Confesso que (tirando o efeito, digamos, teatral da coisa) aquilo ainda não tinha, para mim, o significado que hoje lhe reconheço, depois de muitas formações e experiências na Igreja. Mas chamou-me a atenção (tanto que ainda recordo, passados quinze anos!) uma conversa entreouvida, após o momento sacramental. Não saberia identificar quem falou, mas referia-se ao Padre Quinha dizendo que o “passeio” sendo com ele, era mais fácil ver o próprio Jesus.

As oportunidades que se seguiram a essa só fizeram confirmar tão honrosa opinião a seu respeito. Não estou certo de saber organizá-las em ordem cronológica, mas isso nem faz diferença. Talvez ele fizesse assim com todos, mas não posso esquecer de citar essa espécie de “carinho moleque” que ele tinha comigo e com meu irmão de caminhada, o Arilson: sempre que recebíamos a Santa Comunhão de suas mãos, ele fazia questão de acrescentar, após o necessário: “Corpo de Cristo…” a invocação (no meu caso) “… Maluco!” e (no caso do Arilson)  “…Palhaço!”.

Explico. Padre Quinha conviveu comigo quando eu era voluntário em uma escola de crianças com necessidades especiais; quanto ao Arilson, ele sabia de sua participação no grupo “Doadores de Alegria”, que visita hospitais da cidade fazendo rir os doentes. Desse modo, não houve comunhão nossa que não fosse acompanhada de um seu sorriso cúmplice e da obrigatória brincadeira, que nos forçava a engolir o riso para não engasgar na hora de responder “Amém”. Assim era o Padre Quinha: uma criança travessa.

De outra feita, em um evento promovido pela Comunidade Católica Sião (da qual fiz parte, e onde o Arilson é hoje um leigo consagrado e celibatário), Padre Quinha fez com que Sergio, o Fundador e Coordenador da Comunidade, e sua família (esposa e duas filhas) erguessem juntamente com ele o Ostensório com a presença de Jesus Sacramentado para a bênção final. Passado o “susto”, Sergio foi ter com o padre; estava como sempre preocupado em não desobedecer à Igreja e não suscitar falatórios e interpretações indesejáveis. Com a simplicidade que a intimidade lhe permitia, interpelou-o: “Padre Quinha, o senhor é maluco!”. Este, com sua natural placidez, entendendo a preocupação do Sergio, apenas respondeu, pondo fim à questão: “Pior é comer o Corpo d’Ele!”

Em mais de uma ocasião fui atendido em Confissão por este sacerdote. Três delas são inesquecíveis. Na primeira, atendeu-me depois de aborrecer-se ao telefone com alguém; confessei uma falta de paciência e ele só faltou pedir – se fosse possível! – que o absolvesse da sua própria impaciência que eu acabava de testemunhar. Na segunda, perguntou-me se eu estava arrependido de meus pecados, o que sem dúvida me desconcertou: jamais nenhum outro padre, antes ou depois, chegou a me fazer essa pergunta; no entanto, ela é essencial para a validade do Sacramento da Reconciliação! Garatujei, decerto, alguma justificativa pouco convincente – mas a lição fora suficiente e valeu para sempre.

A terceira vale um parágrafo. Foi no tempo em que ele serviu na Paróquia do Itamarati. Confessei um pecado “cabeludo” e o Padre Quinha, depois de me absolver, levantou-se da cadeira, abriu um armário da sacristia em que estávamos, e foi dizendo: “Nem sei se eu posso fazer isso…”. Retirou de lá um pequeno frasco. Era o óleo do Crisma. Pingou uma gota na minha mão e me disse: “Tem cheiro de rosas. Você vai pra casa e, enquanto estiver sentindo esse perfume, vai rezando Ave Marias, e lembrando a sua dignidade de filho de Deus”. Tem jeito mais lindo de penitenciar um pecador arrependido? E se isso foi algum sacrilégio, agora que ele partiu ninguém mais vai poder condená-lo…

Pra não encompridar o texto, uma última recordação. Ele esteve presente também no último retiro de que participei: uma “Experiência com Jesus”, assim chamada, promovida pela Paróquia do Rosário. Sua pregação era sobre o Espírito Santo. Como sempre, nada de “teologias incompreensíveis”. Contou uma história, que ilustrava bem sua espiritualidade, toda carismática e toda mariana. Depois de enumerar as diversas situações difíceis que cada um de nós pode enfrentar nessa vida, exortava-nos: “Rezem uma Ave Maria.” E concluía: “Com certeza, a nossa Mamãe vai abrir uma janela, lá do céu, pra olhar na direção do teu chamado. E, quando Ela abrir, sem querer, vão se derramar umas gotas do Espírito Santo sobre o teu problema. E pronto.” Estava tudo dito.

Minha esperança é que estas lembranças se unam às milhares de lembranças similares que cada um desta Diocese, com certeza, tem deste precioso filho de Maria, que nos deixou tão cedo; e que formem um grande mosaico sobre o que é viver a santidade, algo que, sem medo de errar, afirmo que o Padre Quinha soube viver como poucos, ou como ninguém. E nas situações adversas que cada um de nós tiver de sofrer neste mundo, assumamos uma atitude semelhante à que ele sugeriu, certa vez, numa pregação de Natal (desta vez, em Cascatinha):  demos, cada um de nós, um tapa para o ar, invocando, com muita autoridade: “Estou em Belém!” Quero ver se algum inimigo se atreve a nos atrapalhar.

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