DOIS POEMAS DE NATAL – Textos de Murilo Mendes e Jorge de Lima.

Natal 2

  

Natal
Murilo Mendes

Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros, atravessa
[os espaços de fogo e toca a orla do manto divino.
O ser dos seres envia seu Filho para mim, para
os outros que O
[pedem e para os que O esquecem.
Uma criança dançando segura uma esfera azul com a cruz:
Vêm adorá-la brancos, pretos, portugueses, turcos, alemães,
[russos, chineses, banhistas, beatas, cachorros e
bandas de música.
A presença da criança transmite aos homens uma paz inefável
[que eles comunicam nos seus lares a todos os
amigos e parentes.
Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e
arranha-céus,
[desenrolando, em combinação com a rosa-dos-ventos,
grandes letreiros onde se lê: GLÓRIA A DEUS NAS
ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA
VONTADE.

muriloMurilo Mendes – Nasceu em 13/05/1901, em Juiz de Fora, MG, e faleceu em Lisboa, em 13/08/1975. Foi um poeta brasileiro, expoente do modernismo brasileiro.

Este poema, publicado em Tempo e eternidade (1935), representa bem a fase mais religiosa do poeta. Destaca-se o abrasileiramento do tema, com a presença de “anjos morenos” e a busca da paz de espírito anunciada pelo nascimento de Jesus.

 

 

presépioPoema de Natal  – Jorge de Lima

Ó Meu Jesus, quando você

ficar assim maiorzinho

venha para darmos um passeio

que eu também gosto de crianças.

Iremos ver as feras mansas

que há no jardim zoológico.

E em qualquer dia feriado

iremos, então, por exemplo,

ver Cristo Rei do Corcovado.

E quem passar

vendo o menino

há de dizer: ali vai o filho

de Nossa Senhora da Conceição!

– Aquele menino que vai ali

(diversos homens logo dirão)

sabe mais coisas que todos nós!

– Bom dia, Jesus!  – dirá uma voz.

E outras vozes cochicharão:

– É o belo menino que está no livro

da minha primeira comunhão!

– Como está forte!  – Nada mudou!

– Que boa saúde!  Que boas cores!

(Dirão adiante outros senhores.)

Mas outra gente de aspecto vário

há de dizer ao ver você:

–  É o menino do carpinteiro!

E vendo esses modos de operário

que sai aos domingos para passear,

nos convidarão para irmos juntos

os camaradas visitar.

E quando voltarmos

pra casa, à noite,

e forem para o vício os pecadores,

eles sem dúvida me convidarão.

Eu hei de inventar pretextos sutis

pra você me deixar sozinho ir.

Menino Jesus, miserere nobis,

segure com força a minha mão.

 

Em:  Poesias Completas, volume I, Jorge de Lima, José Aguilar: 1974, Rio de Janeiro.

jorge                                                                                                                                                                                                                         

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s