PRÍNCIPE (UM TANTO) DESENCANTADO – Texto de Anderson Dideco.

principe_sapoFui chamado de “príncipe”, dia desses.

Minha primeira reação, confesso, foi de perplexidade. Sabe-se lá que tipo de expectativas esta palavra esconderia − ainda mais porque vinda de uma representante do sexo oposto… Estaria eu apto a atender a uma tão alta demanda? 

Resolvi interpelar, assim que a oportunidade apareceu, a autora deste epíteto. Precisava entender, com exatidão, o que poderia significar aquele substantivo adjetivado em seu vocabulário. Que espécie de aspecto de minha personalidade estaria lhe causando aquela surpreendente impressão a meu respeito?

Ela, no entanto, foi lacônica; respondeu somente que chamava assim a todas as pessoas  de que gostava.

Ah, bom!, pensei. Ela diz isso a todos.

Por um lado, tranquilizei-me. Já era um bom sinal que não disfarçasse, com essa palavra inusitada, alguma intenção irônica ou debochada. Foi o que, a princípio, temi.

Sim, pois, convenhamos: até quase o final do século XX, pode ser que a dita expressão tivesse um sentido apenas positivo. Quantas senhoritas terão esperado (algumas em vão, outras com mais sorte) o seu “príncipe encantado”, que seria então o modelo completo e acabado do bom moço: virtuoso, belo, empreendedor, quem sabe rico e de boa família, cheio de boas intenções − e, de preferência, “sarado”. Ah, claro: e um atleta sexual.

Entretanto, não podemos negar que, a partir da década de 90 do século passado, e mais particularmente nessa entrada do XXI, poucas palavras terão sofrido tanta alteração conotativa quanto essa de que fui  chamado.

Para citar assim, de memória:

a) na ficção, o príncipe da Fiona era um “filhinho de mamãe” mau caráter que só queria usurpar o trono − tanto que a modernosa princesa acabou preferindo se casar com o ogro que dá nome ao filme, “Shrek”; em “Encantada”, não foi melhor: o príncipe, que vem ao “mundo real” resgatar a princesa expatriada, não passa de um vaidoso autocentrado, e vai acabar sendo o prêmio de consolação da ex-noiva do cara “comum” que, este sim, conquista a bela protagonista. (Tudo isso porque ainda não consegui assistir “Deu a louca na Chapeuzinho” nem “A princesa e o sapo”. Sabe-se lá que outras humilhações terão sido reservadas, nestas produções,  a esse antes tão considerado personagem das histórias de fadas, o incauto príncipe!)

b) na chamada “vida real”, os herdeiros dos monarcas também não têm sido exemplos de virtudes a serem imitadas: Charles trocou a princesa Diana (que desposara em núpcias de sonho) por uma velhota com cara de feminista − e ainda se especula se não haveria o seu dedo “podre” por trás da morte da esposa, ocorrida em circunstâncias suspeitas e  jamais esclarecidas; o filho deste pomposo casal acaba de ser flagrado nu, em cenas vexatórias para a realeza britânica, numa festa pouco comportada em que, ao que tudo indica, rolou muita droga e bacanal.

Nada  animador, como se vê. Ser chamado de príncipe, neste novo milênio, é objeto de muita controvérsia. Afinal, a que modelo estarão propriamente nos comparando? E que as mulheres não se entusiasmem muito, pois está aí a Stephany de Mônaco para mostrar que a contrapartida feminina é, também, verdadeira. (Embora, diga-se a verdade, ela ande um tanto desaparecida dos noticiários).

Neste nosso tempo, de mídias exaltadas e papparazzis desbragados; em que é uma temeridade almejar que nossa privacidade seja minimamente preservada; em que o único valor que parece prevalecer e ser reconhecido pela sociedade é o sucesso ou a “celebridade”, muitas vezes à custa de se pôr de lado valores verdadeiros como integridade, ética, moral; neste tempo, enfim, em que o escândalo interessa mais (porque mais lucrativo) do que a busca de referenciais humanos e espirituais consistentes − como poderíamos definir um “príncipe”?

Se fossemos, aqui, enumerar as qualidades e atributos que justificassem a “envergadura moral” que se espera desta mortal criatura, chegaríamos à conclusão de que descrevemos, isso sim, um santo. Santo mesmo, canonizado, de “altar”. Os de “redoma”, ou seja: aqueles possuidores de virtudes heróicas que a humanidade contemporânea considera quase “irreais” (curiosa palavra, neste contexto!) e, por isso mesmo, inatingíveis.

Entretanto, os santos estão por toda parte. Talvez desvalorizados no “mercado” dos homens, talvez desprezados pelas mesmas mulheres que (ainda) se deixam iludir pelos “príncipes” do presente, por mais decepcionantes que estes de fato sejam. (Nem vou entrar aqui no mérito das que se apaixonam pelos vilões; deixo isso para um outro possível texto.)

Os santos são, na acepção correta da palavra, os batizados (consagrados, separados para Deus) que lutam, dia a dia, para “manter” esta santidade recebida no sacramento do Batismo, esforçando-se por combater, em si e nos irmãos, os “dragões” do pecado e da má influência de um mundo deturpado pela negação da existência de Deus.

Os santos estão espalhados por aí, à espera de mulheres que os enxerguem por trás das “armaduras espirituais” com que procuram defender, a si mesmos e ao mundo, da corupção dos costumes, da degeneração generalizada. Estão, de fato, sozinhos, vacantes, avançando como Dons Quixotes contra os moinhos de vento da modernidade, à espera de que alguma Dulcinéia se habilite a cruzar seus caminhos.

Se serão esses os que merecem, na verdade, ser considerados “príncipes” − os filhos do Rei dos Reis, aqueles que se preocupam, segundo um parecer que rola nas redes sociais, em “tratar as mulheres como princesas, mostrando assim que foram educados por uma Rainha”  − então, sim, admito, sem nenhuma falsa modéstia, e também sem presunção: eu sou um deles.          

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Um pensamento sobre “PRÍNCIPE (UM TANTO) DESENCANTADO – Texto de Anderson Dideco.

  1. Own’t *——*

    Nem preciso dizer que seu texto está incrível Magnífica a maneira como você desenrola um simples gesto, em um texto tão rico! Parábens

    Principe 😀

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