“BOLA NA TRAVE NÃO ALTERA O PLACAR” – O que o futebol me ensinou. – Texto de Rodrigo Moco.

Texto originalmente publicado no site oficinadevalores.blogspot.com.br

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O futebol é no Brasil uma grande paixão nacional, paixão esta cantada em vários ritmos, contratada nos pacotes de “pay-per-view”, comprada nos ingressos de estádios e alimentada nos sonhos de milhões e milhões de garotos que almejam ser novos Romários, Ronaldos, Neymares, etc. Um dia eu já fui um desses garotos, levei muito a sério o sonho de me profissionalizar no futebol e dediquei minha adolescência inteira a isso, dos 12 aos 18 anos quase que diariamente. Com o futebol aprendi muito, e a maior parte dos ensinamentos que extraí foram bons; há um, no entanto, que considero que não foi tão bom assim.

Desde os 5 anos eu ia brincar na rua próxima à minha casa e a brincadeira favorita sempre foi o chamado “golzinho de praia” ou mesmo “olezinho” − caso você não conheça nenhum dos dois termos (não teve infância) entenda-os como futebol de rua.

A princípio pensava em ser atacante, goleador como os que via na TV, mas não tinha muita aptidão para isso. Uma vez jogávamos com uma garrafa plástica e tive um desempenho extraordinário como goleiro; eu me surpreendi, chamei a atenção de todos e encontrei-me na posição menos almejada possível. O tempo passou e aos 12 anos recebi um convite inesperado para treinar num clube de expressão do Rio de Janeiro, que foi o Fluminense. Foi tudo muito rápido, na época eu não treinava em lugar nenhum e a indicação foi feita pela minha professora de Educação Artística (fato um tanto quanto inusitado) e no dia seguinte ao convite fui ao CT de Xerém fazer meu primeiro treino. La conheci garotos que jogavam na minha categoria e que hoje se destacam, entre eles os gêmeos Fábio e Rafael (este se encontra disputando as olimpíadas de Londres) que são profissionais do Manchester United.

Minha família e os meus amigos sentiam um grande orgulho, e até mesmo aqueles que não me davam atenção na escola passaram a se aproximar. Lembro-me com clareza deste momento e da primeira orientação que recebi: cuidar das pessoas que me cercavam. Era necessário que eu soubesse com quem eu podia contar e que eu cuidasse para que não se aproveitassem de mim. A primeira surpresa negativa que eu tive no clube é que os treinamentos eram diários, de segunda a sábado, e domingo (depois que eu fosse efetivado no time) era dia de jogo. Foi de certa maneira um baque, até então eu não fazia nada da vida além de estudar e ter um compromisso diário seria muito custoso; por mais que eu quisesse alcançar os fins, os meios me exigiam mais do que eu estava disposto a oferecer. A situação dos gêmeos era parecida com a minha e eles abriram mão de tudo aqui em Petrópolis, que é nossa cidade natal, para morarem nos alojamentos do clube e, assim, se dedicarem mais aos treinos.

Cada vez mais eu empurrava os treinos com a barriga, tinha preguiça, achava que não valeria a pena. Em um ano eu havia deixado o clube, situação que encarei como um alívio; enfim poderia viver minha adolescência. Mas espera aí! E o sonho? E a busca? Quando me dei conta da escolha que havia feito era tarde, tentei recomeçar aqui mesmo na cidade, desta vez num clube de expressão muito inferior, o Serrano. No meu primeiro treino em meados de 2004 cheguei com status de reforço importante, ex-atleta do fluminense, bom porte físico, era bem visto e bem quisto por todos no clube, a rotina era muito mais leve com somente um treino por semana. No meu jogo de estreia tive uma atuação de gala, de encher os olhos, eram só elogios e boas expectativas, até que mais uma vez comecei a me perder. Já não queria treinar nem aos sábados, era uma falta aqui, um atraso ali, até um dia que virei a noite numa festa de 15 anos e cheguei atrasado ao treino caindo de sono; tive uma atuação péssima, ridicularizei o técnico na frente de todos e o resultado é que fui barrado e passei o campeonato inteiro na reserva. Depois disso passei mais 4 anos jogando, transitei por alguns clubes e minha precoce carreira acabou aos 18 anos com uma lesão mal curada no ombro esquerdo. Foram alguns títulos, alguns reconhecimentos, alguns contatos e muitos, mas muitos ensinamentos dos quais, desejo partilhar alguns.

Todas as pessoas que vi darem certo no futebol, deram certo porque se esforçaram. É necessário correr atrás das metas. Aos 12 anos eu e os gêmeos citados buscávamos o mesmo objetivo, porém eu via a rotina como cansativa e exagerada, eles se esforçaram por dar conta do que era proposto. Quando eu me lesionei aos 18 anos jogando uma liga amadora em Petrópolis, eles já eram profissionais na Inglaterra. Não há sucesso sem esforço, não há conquista sem suor. Quem quer alcançar os fins, necessariamente deve querer também os meios.

O futebol ensina que nem todo mundo pode vencer sempre e isso é interessante demais. Da equipe mais forte e com mais recursos à equipe mais fraca, todos experimentam o gosto da derrota. O maior ídolo da história do Serrano é um rapaz conhecido como Anapolina e o que fez dele tão importante para o clube foi um gol, um simples gol. Em 1982 o Flamengo veio à Petrópolis fazer um jogo decisivo contra o time da casa, a equipe carioca era a atual campeã mundial (tinha nomes famosos como Junior, Andrade, Adílio, Zico, Nunes) e foi derrotada pelo modestíssimo Serrano por 1×0 aqui na serra, perdendo assim a chance de ser campeã carioca daquele ano. Ninguém é forte o suficiente para não cair, e nenhuma queda pode ser suficientemente forte para te deixar no chão.

Por fim, quero dialogar com a frase retirada da música do Skank que foi título do texto: “Bola na trave não altera o placar”. No futebol não tem espaço para o quase, ou é ou não é. Por isso o vice é visto de maneira tão pejorativa, por isso os 6 anos que passei envolvido com os treinamentos, concentrações, atividades físicas e dietas hoje não significam nada em termos de sucesso no esporte. Não basta chegar perto, é preciso conquistar; só os títulos e conquistas ficam marcados. As grandes campanhas, salvo raras exceções são esquecidas. A isso se aplica a famosa expressão: “Nadou, nadou e morreu na praia”.

Dentre os ensinamentos que recebi no futebol, a meu ver esse é o único que não se aplica à nossa vida. É claro que estamos atrás de nossas grandes conquistas, buscamos êxitos, mas o fato de não alcançarmos os nossos objetivos não pode e não deve invalidar os nossos esforços. O menor passo em direção a uma meta de realização já é uma conquista, a menor intenção de ser melhor já é uma grande transformação.

Passei o texto inteiro falando de como eu não dei certo no futebol e o que eu aprendi com isso. Não tenho a menor dúvida que o maior aprendizado que eu tirei de toda essa experiência é que a minha vida não parou no insucesso de não ter o meu sonho de infância realizado. Apesar de, na época, não almejar de forma clara nenhum outro caminho que não fosse a carreira futebolística, exatamente no ano em que parei de jogar tive a graça de conseguir uma bolsa integral para a universidade. Claro que por vezes me questiono: como seria se eu tivesse levado mais a sério? Onde eu estaria agora? Sinceramente, não tenho respostas para estas perguntas, não saberia dizer com exatidão o que eu perdi, mas certamente daria muito mais do que um texto se eu resolvesse escrever sobre tudo o que eu ganhei.

O texto já está enorme e não cabe me alongar, mas quanto a bola na trave não alterar o placar é verdade;  porém se tivermos alguém para pegar o rebote, teremos a possibilidade de construir uma nova jogada que resulte em gol, e aí sim poderemos não só alterar o placar, como também alterar o curso da nossa vida. Sou grato porque tive a oportunidade de me refazer, sou grato ainda mais porque sei que pela frente encontrarei coisas melhores do que as que deixei para trás. Sou grato porque sei que o melhor ainda está por vir e está somente a uma escolha de distância.

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