ESSE É MEU IRMÃO… (Mt 12,46-50) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Jesus1Como entender a reação de Jesus que, à primeira vista, parece evitar o contato direto com o grupo de familiares que o procura? O primeiro ponto que nós podemos considerar nos é dado pelo evangelista São Marcos: diante da atuação pública de Jesus, que atraía multidões, seus parentes duvidam de sua sanidade mental e pretendem leva-lo à força para casa. (Cf. Mc 3,21.)
Afinal, aos olhos de todos, Jesus era um simples carpinteiro de Nazaré que se comportava como um Rabi… A súbita mudança de rumo em sua vida podia, mesmo, assustar os mais próximos. E o bom senso nos leva a crer que Maria, sua mãe, acompanhava os parentes a contragosto.
Avisado da chegada dos familiares, Jesus aproveita para dar a todos uma lição. A própria noção de “família” é alterada, quando o Mestre aponta para a multidão sedenta de sua Palavra e diz: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão e minha irmã e minha mãe”.
Não há nada aqui que nos deva causar espanto. De fato, quem obedece ao Pai do céu, quem ouve sua Palavra, age na prática como filho. Irmana-se, pois, com Jesus, o Filho obediente, que jamais foi capaz de pôr seus próprios interesses e vontades acima da vontade do Pai.
Antes que alguém tente valer-se desta passagem para desmerecer a figura da Mãe de Deus, é bom lembrar que Maria é exatamente o modelo de quem ouve e acolhe a Palavra em seu íntimo, a ponto de gerar o Verbo na própria carne. Assim sendo, ela se encaixa perfeitamente na nova definição de família que Jesus acaba de divulgar.
No contraste entre os laços de sangue e os laços de espírito, estes ficam com a primazia. Realidade experimentada por tantas pessoas, que acabaram por estabelecer relações de maior intimidade, mais confiança e calor humano entre companheiros de caminhada na fé do que entre os próprios membros da família carnal. Tanto que os monges chamavam seu superior de Pai (Abba, Pater), e as monjas viam na superiora a sua Mãe (Madre). O membro da mesma comunidade era irmão (frater) ou irmã (sóror).
Se, por um lado, o cristianismo veio valorizar a família, reconhecendo nela algo sagrado e querido por Deus, por outro lado acenou também com a necessidade de rupturas e desapego familiar quando se trata de seguir os chamados do Senhor. E o exemplo maior nos vem de Jesus, que precisou deixar sua mãe, já viúva, para seguir a exigente missão que o Pai celeste lhe confiara.

Orai sem cessar: “O Senhor faz as famílias numerosas como rebanhos.” (Sl 107,41)

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