O DIABO EXISTE, E É BOM – Texto do Irmão Agostinho Ramos da Silva, osb, do Mosteiro da Ressurreição.

nicolasO rosto quase bonachão, calvo, a imagem da fragilidade acentuada pelo óculos, em contraste com o corpo musculoso e a sinistra máscara de couro, faz Nicholas Cage hesitar. “Machine” aproveita a chance e derruba o detetive, enquanto diz: “Eu não fui estuprado, ninguém abusou de mim quando criança, eu sou perfeitamente normal. Faço o que faço porque gosto”. O que ele faz, no caso, é “atuar” em filmes nos quais as pessoas são estupradas e mortas de verdade.

8mm é um dos melhoes filmes de suspense de 1999, e retrata muito bem a questão dos chamados snuff-movies, que constituem mais um produto para a aparentemente insaciável perversão humana Muitos deles, não obstante sua temática escabrosa, são realizados como quaisquer outros, isto é, com efeitos especiais, mas policiais americanos e europeus já acreditam que outros muitos, filmados principalmente no sudeste da Ásia, são de fato reais.

Quando alguém descarrega uma arma a esmo, ferindo e matando quem estiver por perto, num cinema, numa escola, a primeira − e talvez única − pergunta que fazemos é: por que? O horror e o absurdo são tão intensos que a racionalização aparece como a única saída: ah, o cara era louco; ah, essa ideologia, aquela religião, todos esses filmes e jogos de violência… e por aí vai. Mas no fundo, bem no fundo, talvez a resposta de “Machine” nos ponha diante de uma questão que raramente temos coragem de enfrentar: “faço porque gosto”, e ponto final.

Nós, católicos, sempre que vamos à missa dizemos que pecamos muitas vezes, e de muitos modos. Poderíamos acrescentar que gostamos do que fizemos (e bastante, do contrário não haveria reincidência), e que não fizemos mais por absoluta falta de tempo, coragem e talento.

Seja como for, o ato penitencial que acontece no início da missa expressa, para além de todas as limitações e condicionamentos de ordem psicológica, cultural e outras, a realidade fundamental: naquele espaço de liberdade efetiva de que disponho, frequentemente oriento minha vontade e meus atos para o mal, deliberadamente. Nada a ver com ideologias circulantes na sociedade, com problemas de família, genéticos e que tais, com a decadente cultura ocidental ou o último filme do Sylvester Scharzenegger. Nada disso. Apenas a minha vontade.

Nessas regiões sombrias da existência humana, em que as ciências pouco ou nada têm a dizer, move-me um personagem ao qual, creio, muita coisa foi indevidamente atribuída: o demônio. Hoje, com tantos anjos subindo e descendo por aí, não era mesmo de se espantar que alguém se lembrasse desse em especial. [Falando nisso, creio que o último lugar em que o demônio daria as caras seria um culto satânico. Primeiro por causa do constrangimento: ele certamente não ficaria à vontade no meio de um circo daqueles. Segundo, porque o mal que essa gente faz a si própria é infinitamente maior que o que ele lhes poderia causar, de modo que é até melhor assim. Por outro lado, ele deve se divertir à beça nesses lugares onde é ‘exorcizado’ em três shows diários.] E o que estamos presenciando é um número crescente de leigos e religiosos que, sem a mínima habilitação para isso, estão diagnosticando a presença e a atuação de anjos e demônios na vida das pessoas.

Recentemente, com pouco mais de uma semana de intervalo, chegaram ao meu conhecimento o caso de uma religiosa que disse a uma pessoa que sofre de câncer que se trata de uma ação demoníaca; e o de um seminarista, desses que tomam chá diariamente com nossa Senhora, que garantiu a um casal meu conhecido que algumas dificuldades por que estão passando se devem à ação de um “espírito do mal” que está em sua casa. Há ainda uns padres que, com a maior sem-cerimônia, declaram que as pessoas por isso ou aquilo já estão previamente condenadas ao inferno; o que vem a ser, precisamente, a melhor maneira de arrumar uma passagem de primeira classe e sem escalas para as profundezas do dito-cujo. Tudo isso faz lembrar frei William de Baskerville [nota do digitador: personagem de ‘O Nome da Rosa’], do Umberto Eco, que diz que, frequentemente, a única prova que temos da presença demoníaca é o intenso desejo daqueles que querem sabê-la em ação.

Por volta de 1985 eu tinha um amigo que começou a namorar uma garota que frequentava um desses empreendimentos que se autodenominam igrejas. Ela o arrastou para um culto e tudo corria em relativa paz até que, como manda o script, chegou a hora do exorcismo. Ora, sem diabo não há exorcismo, de modo que, dado o sinal,  o capeta começou a se manifestar em vários dos presentes. Meu amigo viu que o sujeito ao lado dele começou a querer dar chilique, ter uns estremeções, e aí, sem que a namorada percebesse, disse baixinho no ouvido do possuído:  − Olhaí, meu chapa, vai ficar bem quietinho senão te encho de pancada (o termo que ele usou realmente me foge no momento) aqui mesmo. E naquele mesmo instante o pobre homem foi liberto do demônio que o atormentava.

Outro caso aconteceu aqui no mosteiro. Um grupo de jovens apareceu muito preocupado, porque um deles andava tendo uns fricotes meio estranhos durante as reuniões. Um dos irmãos levou o rapaz para um canto, teve uma longa conversa com ele e depois o trouxe de volta para o grupo, com o diagnóstico: − É um caso simples de carência afetiva. Basta vocês darem um pouco mais de atenção a ele que tudo fica bem. Esses aí, sim, são exorcismos de verdade.

Que o demônio existe e age contra nós, está na Revelação Divina e no Magistério da Igreja. Que ele é apenas uma criatura (e portanto bom em si mesmo, pois tudo o que Deus fez é bom; o que ele fez com sua liberdade são outros quinhentos), ainda que poderosa, também.

Portanto, não se pode reduzir o demônio a uma patologia psicológica − negando sua identidade pessoal − sem abandonar a fé católica, o mesmo acontecendo com os que praticamente o elevam à condição de antagonista de Deus, de uma espécie de princípio objetivo do mal.

E são esses os dois maiores favores que se podem fazer ao demônio: achar que ele não existe, ou dar-lhe demasiada atenção. [C.S.Lewis diz a mesma coisa e pratiamente com as mesmas palavras. Lamento ter lido o excelente livro dele somente após a publicação desta crônica]. Da mesma forma, a preocupação excessiva em identificar a ação do demônio nos outros talvez seja o grande sintoma de que ele está agindo, sim, mas nos inquisidores de plantão. Mais ou menos como diz o Exorcista de W.P.Blatty: “É nisso que eu acho que consiste o endominamento: não em guerras, como alguns tendem a crer; nem tanto assim; e muito raramente em intervenções extraordinárias… Não, eu o encontro com muito mais frequência nas pequenas coisas: nas malevolências absurdas, mesquinhas; nos desentendimentos; na palavra cruel e mordaz que vem espontaneamente à língua entre amigos. Entre esposos. Basta isso, e não temos necessidade de que Satã organize nossas guerras. Destas, nós mesmos nos encarregamos”.

Entretanto, falando francamente, na maior parte do tempo sou levado a pensar com o simpático demônio Anthony Crowley, de Neil Gaiman e Terry Pratchett, que nada que um demônio possa conceber se compara àquilo de que é capaz a mente humana em seu pleno funcionamento.

in A Fraternidade Cósmica do Repolho Místico, ed.Peregrina, 2001, 1a ed. págs.: 47/51

tentação

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s