A MECHA QUE AINDA FUMEGA… (Mt 12,14-21) – Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

cruz

Este Evangelho deveria chocar o leitor pelo áspero contraste: de um lado, os fariseus confabulam secretamente para assassinar Jesus; de outro, Jesus cura a todos os que o procuram e lhes impõe silêncio a respeito da graça recebida. Acumula-se o ódio como paga ao amor…
Nossos olhos humanos parecem despreparados para contemplar uma sequência desta natureza. Em geral, somos impiedosos diante do fraco. A sociedade capitalista, de produção e consumo, de realizações e sucessos, admira os poderosos, aplaude seus ídolos e, diante do fraco e do deficiente, ainda contribui para desgraçá-los ainda mais, relegando-os à periferia do sistema. Aqui e ali, repetem-se os gestos de zombaria e de desprezo por todo tipo de vencido do sistema…
Jesus é bem diferente! Não nos passem despercebidas as imagens da profecia de Isaías: o Messias enviado por Deus – exatamente Jesus de Nazaré – não quebrará a taquara que já está rachada, isto é, não agravará sua fragilidade. O Messias não apagará a mecha bruxuleante da lamparina cujo azeite está quase no fim. Ali onde a fraqueza é mais evidente, ali mesmo a compaixão e a misericórdia de Jesus se mostrarão mais presentes, mais atuantes.
Temos aqui todo um programa de vida para o cristão fiel: onde é que precisam de mim? Onde eu serei mais necessário. Onde é mais evidente a necessidade de minha presença e de minha dedicação? Bem no polo oposto do mundo pagão, regado a conforto e hedonismo, cujas perguntas são inteiramente opostas: onde eu terei mais prazer? Onde serão menores os meus sacrifícios. Onde terei mais aplausos e compensações?
Talvez estas reflexões nos ajudem a entender melhor a forma como Jesus abraça voluntariamente a sua cruz, tendo em vista a salvação de uma humanidade agonizante. Ela ainda agoniza em nossa fatia de História: mendigos e drogados, os sem-teto e os sem-terra, analfabetos e marginais, as crianças-soldado da África e os que fazem fila no SUS… Se Jesus voltasse (e parece que voltará…), iria primeiro ao encontro deles, pois, abandonados que são por nós, só mesmo de Deus podem esperar algum sinal de amor…
De algum modo poderíamos nós diminuir o trabalho de Jesus e o sofrimento de nossos irmãos?

Orai sem cessar: “Eles bradam, o Senhor ouve…” (Sl 34,18)

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