NINA E CARMINHA: O BEM SEMPRE VENCE NO FINAL? – Texto de Anderson Dideco

nina e crminhaNos tempos de hoje, em que a influência midiática é inquestionável, mesmo para quem não a assista, fica difícil não tomar conhecimento das inúmeras peripécias vividas pelas antagonistas de uma telenovela de tamanho sucesso como ‘Avenida Brasil’. Em todos os ambientes e nos horários mais imprevistos (por mais que se lhe fuja), a atração das 21h da Rede Globo mobiliza as opiniões e fomenta os comentários mais diversos. Não há quem não se envolva − ainda que seja para criticar e se posicionar contra este veículo dramatúrgico cujo valor é, sem dúvida, discutível. 

Não quero entrar no mérito mais abrangente da questão; responder se este produto presta ou não desserviço à cultura de nosso país − já que angaria tanto defensores apaixonados como ferozes detratores − não é o objetivo deste texto. Penso, entretanto, que alguns dos aspectos levantados pela trama principal da referida novela merecem a nossa atenção, e podem servir para algumas reflexões importantes.

Uma das maiores polêmicas que o texto de João Emanuel Caneiro suscita é em relação à atitude de Nina − personagem defendida com dignidade pela atriz Débora Falabella: obcecada por uma vingança, a que dá porém o nome politicamente correto de justiça, aquela que deveria ser a ‘mocinha’ do folhetim (a que tradicionalmente sofre até um final ‘redentor’) é apresentada, ao contrário, como um ser capaz de passar por cima até de seus próprios valores para atingir o que pretende. Vale dizer que esta ‘ambiguidade’ é, da parte do autor, completamente proposital.

Não é incomum esbarrarmos, em redes sociais e outros meios semelhantes, com enquetes ou discussões sobre onde terminaria a justiça e começaria a vingança; ou mesmo com o parecer desta ou daquela ‘celebridade’ sobre como agiria se estivesse no lugar de Nina (na verdade, Rita). Favoráveis ou não, as opiniões se dividem. Tanta especulação, obviamente, interessa à emissora, já que desperta mais espectadores para os comerciais que a financiam,  alegrando assim os patrocinadores que atrelaram a divulgação de seus produtos ao desejado sucesso do programa.

Mas está claro que a polêmica não tem só intenções, digamos, monetárias, e que essas nem sempre serão necessariamente escusas. Se levarmos em conta, por exemplo, que a televisão é uma indústria de entretenimento que emprega milhares de profissionais das mais  diversas áreas, teremos plenamente justificada a necessidade de sua existência. Restam, é óbvio, as implicações morais; e estas, sabemos, pouquíssimas vezes são de fato consideradas.

Ouso dizer que a intenção do autor é louvável; e é o que me leva a entrar nessa seara. Responsável por outros textos para a tevê, é também de sua lavra o roteiro do filme ‘Central do Brasil’, que tantas alegrias trouxe ao país ao ser indicado para o Oscar. Para além das qualidades inegáveis do texto, atraente e bem resolvido do ponto de vista dramatúrgico (salvo alguns deslizes, próprios e bastante comuns em veículos de massa), considero a discussão que ele busca promover na novela muito atual e relevante.

Senão, vejamos. Num país em que grande parte da classe dominante poderia bem ser comparada, em descaramento e canalhice, à personagem Carminha (brilhantemente interpretada por Adriana Esteves, que entra a meu ver no rol das melhores atrizes de sua geração)  − e que não por acaso tem nos seus planos maquiavélicos entrar para a política  −, a questão que se impõe, com certeza, é essa: até quando o nosso povo ficará sofrendo, inerte, com os desmandos de quem detém o poder, como uma mocinha de folhetim antigo? Ou quando finalmente tomará em suas mãos seu destino e se mobilizará, agora sim, não mais  por tramas de ficção, mas pela pura e dura realidade que precisa ser urgentemente modificada?

E, indo ainda mais a fundo naquilo que João Emanuel parece querer nos dizer: é lícito tornar-nos ‘um deles’, naquele velho estilo: ‘não pode com eles, junte-se a eles’? Ou seja: devemos agir de modos moralmente questionáveis para combater aqueles que, com sua falta de moralidade, nos atingem, prejudicando-nos? Até onde vai a nossa permissividade para com o mal? E a nossa passividade − não acaba se tornando conivência com o erro?

Alguns autores de telenovelas, nos últimos tempos, têm escolhido não punir seus vilões. Até porque, estão geralmente entre os personagens mais populares, que caem mais facilmente no gosto da audiência. Deixá-los impunes seria (na visão deles) uma crítica social, um grito de alerta ou de indignação para um estado de coisas contra o qual se faz necessário insurgir-se.

Punir o mal, ao contrário, causaria apenas no público um ‘efeito catártico’, que parecem considerar prejudicial e indesejável. (Afinal, desde que o mundo é mundo e que histórias são contadas o bem vence no fim; e  todos ficamos confortavelmente satisfeitos porque fomos ‘vingados’ de todo mal que nos impingiram − e continuam a nos impingir, na arte como na vida.)

Mas fico pensando se esta opção não esconde um mal mais profundo, que é a desesperança. Ronda-nos uma imensa e assustadora falta de confiança de que o crime realmente não compensa, de que o mal há de ser castigado, de que a justiça (nem que seja a divina!) há de prevalecer e que os justos serão, um dia, recompensados. Bento XVI, em seu documento sobre a esperança (Spe Salvi), já nos alertava para essa espécie de ‘derrota prévia’, esse ‘entregar o ouro ao bandido’ que significa perder a fé no julgamento dos maus por um Deus que é só bondade. Falta de conhecimento acerca da doutrina do Juízo Final.

E, por fim: quando mocinha e bandida estão jogando com as mesmas cartas marcadas, lutando com as mesmas armas? Qual deve ser o desfecho de tal enredo? Seria justo só punir um dos lados? Vamos fechar os olhos, para sempre, ao fato inegável de que a cada escolha corresponde uma consequência, boa ou ruim, conforme o caso? Vamos torcer para que lado? Para onde pende mais a balança de nossos valores morais: Nina ou Carminha? O bem ou o mal? Ou ficaremos, quem sabe, como a própria Nina até agora, em cima do muro?

Só por levantarem tais questionamentos, já valeria a pena terem existido as duas principais personagens de ‘Avenida Brasil’. Essa minha afirmação talvez ajude os ‘puristas’, os ‘fariseus’ de plantão, a pensarem duas vezes antes de dizer que novela, ou que a Rede Globo, é coisa do diabo. Como ensina São Paulo, “para os puros, tudo é puro”. A maldade, geralmente, está nos olhos de quem vê.   

 

 

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4 pensamentos sobre “NINA E CARMINHA: O BEM SEMPRE VENCE NO FINAL? – Texto de Anderson Dideco

  1. Nunca assisti um capítulo dessa novela porque, entre outros motivos, na minha casa não “pega” a rede globo. Vi referências em diversos lugares…Parece que está havendo uma ‘queda do herói’, ou seja em sua busca por justiça nina está se tornando uma vilã…É o velho olho por olho. O problema é que quando essa regra é aplicada ao pé da letra nos sobra um país de cegos.

    • Obrigado pelo comentário, amigo. Na tua casa não ‘pega’ a Globo pq vc não quer? Entendo e respeito tua opção. Pessoalmente sou contra toda e qualquer generalização, contra radicalismos. Penso que conhecer o inimigo é, por vezes, muito necessário para melhor combatê-lo. Gde abç.

  2. Não é pq não quero não. Não pega porque usamos a sky e na serra a sky não tem globo. As vezes até sentimos falta….

    Não ter globo tem uma grande vantagem: escolhemos a programação. Parece que estamos tão acostumados com a emissora que já ligamos a TV nela…No começo estranhamos o fato de que não conhecíamos a programação dos outros canais, mas agora já lidamos bem.

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