REFLEXÃO SOBRE A ARTE DE ESCREVER – Artigo de Artur da Távola publicado em jornal – 09.05.08

ESCREVER“A verdadeira tarefa do escritor não é a de ser conhecido, viver o sucesso ou ser “best-seller”, mas a de encontrar, aos poucos, almas gêmeas capazes à sintonia. Não é necessário o êxito. Este é manifestação epidérmica da contemporaneidade. É preciso, sim, ir a fundo em si mesmo, encontrando meios e modos de grafar as verdades e observações próprias. Elas operarão o lento e gradual milagre da funda empatia. Com poucos ou muitos, é outra questão.

Por isso, é importante jamais frear o impulso criador, pouco importa o seu destino. O escritor precisa lutar com as forças que tiver, para ludibriar os sistemas e as exigências de sobrevivência , da convivência e encontrar tempo, ainda que escasso e roubado até de felicidades, para o exercício de seu trabalho, não importa se horas ou minutos, em que tipo de papel, máquina ou computador.

Imperdoável, em quem dotado do dom da palavra, será deixar escapar vivências, idéias, temas e não fixar a percepção luminosa, nos raros momentos em que desaparecem no fluxo incessante e maravilhoso da mente. Cada percepção luminosa pertence a um envolvimento peculiar e a momentos mentais que não se repetem. Podem, até, retornar sob outras formas, adiante. Podem, ademais, constituir obsessões do repertório de vivências internas de cada um, porém nunca retornam da mesma maneira. Para um escritor, é, imperdoável desperdício, o deixar passá-las. O inconsciente recolhe, ávido, o que deixou emergir e não foi aproveitado.

Ao lado das inspirações, há, porém, a necessidade de tempo para o trabalho braçal de desenvolver as ideias e aprimorar o texto. Aqui, é necessário labuta e persistência. Não importa, igualmente, se o escritor tenha ou não condições para fazê-lo dentro do tempo e do ritmo impostos pelos sistemas. Importa labutar, mergulhar no texto, podá-lo até o martírio. Escrever é ler. Ler o que se fez não como autor encantado e sim como leitor, se possível, indiferente ou como crítico.

Mesmo que a obra demore anos a ser construída com a paciência necessária a dar forma ao bronze. E mesmo que não repercuta, o dever maior é realizá-la. O destino dos livros não depende de seu marketing: é misterioso. A meu ver, aliás, a verdadeira vida de um livro começa nos sebos. É quando ele é procurado por sincero interesse e não pela hipnose do sucesso mundano ou mercadológico.

Escrever é permanecer horas, dias e anos (enquanto os demais vivem, fazem, agem, aproveitam) na esperança do encontro, hoje, amanhã ou depois de morto, com algumas pessoas ou muitas almas irmãs com quem sintonizar; o que impossível foi com a maioria das pessoas, até mesmo com quem se conviveu. Quem deseja escrever não deve pensar no sucesso e, sim, nos seres com quem se identificará, muitos ou poucos, não importa.

Escrever é, também, forma de meditar, não apenas no sentido de exercitar o pensamento, mas no de fazer o que os orientais chamam de meditação, vale dizer, a não interrupção do fluxo da mente para penetrar no próprio imo.

A mente cria tanto mais, quando mais livre esteja do pensamento dirigido, utilitário ou do esforço lógico-racional. Por isto é mais criativa no ócio (ou no cio). Não na preguiça, porém, no cio criativo, o que advém de um esforço desinteressado, de um fluir boêmio de pensamentos ou ideias, lavra de ganga bruta dentro da qual pode estar o ouro da descoberta original.

O pensar dirigido, tenso, comprometido com o brilho, o êxito ou a erudição, é magnífico para teses de mestrado e obras técnicas, jamais para atividade literária. Nesta, o fluir deve ser desinteressado, distraído, livre: o esforço da forma (posterior), este sim, precisa redobrar atenção. Cuidado, conhecimento, paciência e capacidade de trabalho. Aqui, o texto deve ser enxaguado à exaustão.

Escrever é, portanto, um prazenteiro martírio. Prazer, porque criar é fonte de prazer. Prazer, porque dar forma ao que punge a si e aos demais é benefício público, porque dar clareza ao que se agita obscuro no limbo do entendimento é matéria de salvação. Martírio, porque é estar sempre aquém e ver sempre além.

Finalmente: escrever bem não é repetir o que já foi escrito − é servir-se do que já foi dito para dizer pela primeira vez. É surpreender o lugar comum como a um inimigo e libertar a verdade que lá jazia prisioneira de repetição. É ser novo e inaugural no que é velho e comum ao ser.”

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