O QUE TOMÉ E OS JAPONESES TÊM EM COMUM? – Texto de Anderson Dideco.

vaso querabdo sabedoria oriental“Quando os japoneses consertam objetos quebrados, eles exaltam o dano preenchendo as rachaduras com ouro. Eles acreditam que, quando algo já sofreu danos e tem portanto uma história, torna-se mais bonito.”

Optei por reproduzir aqui, em vez de uma gravura do santo que hoje a Igreja celebra (São Tomé), esta excelente fotografia com sua maravilhosa legenda, que o meu amigo Cleber Kraus Binho postou em sua Timeline no Facebook. Vocês compreenderão que não é por acaso que o faço; antes, por perceber neste ‘dito’ uma confirmação perfeita e acabada do que pretendia partilhar sobre esse santo, no dia a ele dedicado.

Sempre me intrigou a famosa cena, narrada pelo Evangelho de João (20, 24-29), onde Jesus pede ao descrente Tomé que toque em Suas chagas e ponha a mão no Seu lado aberto. Curiosa maneira de provar Sua Ressurreição ao vacilante discípulo − pelo menos para aqueles que, como eu, andam sempre perscrutando a riqueza da ‘simbologia’ por trás das Sagradas Escrituras.

Não há dúvida que era necessário tocar no Cristo ressurrecto para confirmar-lhe a ‘carnalidade’ (agora glorificada, como se sabe) contra a tendência dos Apóstolos em acreditarem ter, diante de si, um mero espírito ou fantasma. Ninguém questiona também que, ao comprovar concretamente a existência daquelas chagas, não haveria como duvidar de que Aquele que ressuscitara era o mesmo que todos tinham visto crucificado, morto e enterrado. Mal comparando, é como Pôncio Pilatos que entra no Credo apenas para garantir que o Jesus que adoramos como Deus se fez Homem num tempo bem definido e ‘historicamente demonstrável’.

Mas estas respostas, que alimentam minha fé e minha razão, não satisfazem a minha sede de espiritualidade. Um professor de Eclesiologia ou Cristologia (já não me recordo) certa vez espicaçou ainda mais a minha curiosidade ao afirmar, em resposta a uma conjectura minha, que estas chagas não significavam fraqueza da parte do Senhor.

Aquele professor, sendo um instruído sacerdote, deve estar correto. Mas nada me impede de pensar que estas chagas possam simbolizar, isso sim, a fraqueza não do Cristo mas do Seu Corpo Místico − ou seja, a nossa, de Seus membros, que formamos com a Cabeça uma só e una Igreja.

Pelos séculos afora, é justamente ao se depararem com as misérias e mazelas desses membros (ainda em busca da santidade) que muitos e muitos ‘Tomés’ embatucam, se paralisam ou se escandalizam, querendo por isso negar a santidade de toda a Igreja, ou pôr em questão a verdade da Ressurreição de Seu Fundador.

Ao contrário do Apóstolo, que se converte ao ‘experienciar’ a, digamos, deformidade do Corpo de Cristo (que, sendo glorificado, não precisaria, por assim dizer, ter conservado tais chagas, não concordam?), os ‘Tomés’ dos tempos posteriores vão é querer justificar, por meio dessas ‘falhas visíveis’, a sua incredulidade. Vão encontrar motivos para denegrir a Santa Igreja, sua doutrina, e a Verdade de que é depositária por não admitirem que um Corpo já revestido de Glória possa ainda conservar ‘defeitos’ em sua constituição.  

Sim, somos todos santos e pecadores. Somos santificados pelo Batismo e pelas demais graças advindas dos Sacramentos, de que todos partilhamos; mas somos também condicionados pela concupiscência, herança infeliz do Pecado Original que − conquanto vencido pela Paixão de Cristo − ainda nos limita, impedindo-nos (temporariamente) de alcançarmos a plenitude da Salvação que Jesus nos mereceu na Cruz.

Tanto mais grave é quando essa ‘incompreensão’ grassa dentro da própria comunidade cristã. Quando nós mesmos não aceitamos nos confrontar com nossas próprias chagas e acabamos nos tornando farisaicos cobradores de perfeição dos irmãos à nossa volta. Em vez da misericórdia divina e da gratuidade do amor de Deus, anunciamos uma religiosidade de ‘cumprimento de prescrições’, de ‘sacrifícios exteriores’ contra a qual Jesus tanto se insurgiu!

Há proximidade mística entre este episódio do Evangelho, que a Liturgia hoje nos dá a meditar, e aquele outro em que Jesus conta a parábola do fariseu e do publicano. Os orgulhosos, os que se acham melhores do que os outros, melhores do que os irmãos, hão de sempre franzir a cara diante das quedas alheias, e até se regozijar de ‘não fazerem parte’ de um povo com tantas imperfeições.  Mas é aos humildes que Cristo promete o Reino dos céus.

Assim, quando as nossas limitações (ou as dos que nos rodeiam) nos parecerem ‘difíceis de engolir’, que tal realizarmos que é o próprio Senhor quem nos dá a graça de ‘pormos o dedo’ nas feridas abertas em Seu Corpo eclesial? Que tal descobrirmos que é justo desse ‘lado’ que jorra toda a graça de que andamos aí, pelo mundo, tão necessitados? A fonte, enfim, da fé que nos abrirá os olhos, livrando-nos de toda cegueira que nos impede de reconhecer o Cristo e, como Tomé, O proclamar ‘Meu Senhor e meu Deus’? 

Pra finalizar, retornem à gravura que embeleza  e enriquece esse texto e vejam se eu não tenho razão em dizer que ela (e sua legenda) tem ‘tudo a ver’ com o tema que hoje proponho para esta nossa ‘prosa’ espiritual… 

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