EU ENTENDO A FÁTIMA BERNARDES – Texto de Anderson Dideco.

FÁTIMZAcabo de assistir, pela primeira vez, a um trecho do novo programa da Fátima Bernardes. Estreia badalada da Rede Globo de Televisão, nesta semana, onde a repórter − até então conhecida como ‘âncora’ do Jornal Nacional − inicia uma nova etapa em sua carreira.

Ao abandonar seu posto, ao lado do marido William Bonner atrás da bancada do JN, Fátima deixou claro que estava indo atrás de realizar um antigo sonho. Vendo um pequeno pedaço de seu programa de variedades (ou atualidades, como queiram), devo dizer que entendi os motivos que levaram Fátima a uma decisão de mudança, para muitos talvez, tão arriscada e radical. Depois de tanto tempo (quanto? quinze anos?) com seu nome atrelado a um ‘produto’ sério como um telejornal, era natural que a apresentadora almejasse uma guinada em sua, digamos, performance.

Analisando a ‘pauta’ (para ficarmos no jargão jornalístico) da nova atração das manhãs globais, chega-se a vislumbrar com clareza qual era o afinal o tal ‘sonho’ que a Sra. Bonner, há tantos anos, acalentava. Mais do que simplesmente uma mudança de atividades − necessária e salutar em qualquer área de atuação humana − creio ter percebido, por trás do novo projeto, um profundo desejo de ‘mudar o foco’.

Acompanhar e noticiar, por período tão longo, as transformações do país e do mundo; influir na formação da chamada ‘opinião pública’ através de um meio de comunicação de tão grande alcance, num horário considerado nobre da tevê; e fazê-lo angariando, para si mesmo e para a equipe com que se trabalha, alguma credibilidade, é uma tarefa hercúlea, sem dúvida; mas é também a possibilidade de realização ideal para alguém que escolheu como meio de expressão o jornalismo, pois não?  

Nesse sentido, não há como imaginar que Fátima Bernardes estivesse ‘frustrada’ com a posição que atingira, com todos os méritos que se lhe queira atribuir. Então, o que poderá ter, de fato, impulsionado essa necessidade de mudar?

Ao fim do programa, fiquei com a agradável sensação de tê-la compreendido. Deve ser terrivelmente desgastante, noite após noite (e por meses, anos a fio!), precisar noticiar sempre as mesmas situações políticas decepcionantes; o mesmo descaso social; a mesma ganância e tirania das nações − seu descarado interesse em detonar os artefatos destruidores da rentável indústria bélica; a mesma corrupção nos meios públicos; a mesma devassidão e destruição de valores nos meios privados; a mesma indiferença com o valor do homem e da vida, o mesmo sarcasmo perante tudo o que possa ser vagamente entendido como transcendente ou que não respire, imediatamente, os ares viciados do lucro a qualquer custo.

Há de ser extremamente desanimador pensar estar contribuindo, pela tão defendida liberdade de imprensa, para realizar os anseios de uma sociedade mais democrática e mais justa e, um belo dia, concluir que, ao contrário, só estávamos mesmo era colocando mais lenha na fogueira das vaidades e soprando a brasa do incêndio que, calma e continuamente, destrói qualquer possibilidade real de libertação, de democracia ou de justiça. Por que é isso que, infelizmente, a nossa imprensa vem fazendo, em sua grosseira maioria.

Quando se veicula notícias desesperadoras, se semeia a desesperança. Quando se divulgam ideias contrárias à vida, alimenta-se a cultura de morte. Quando a ‘principal atração’ de nossas matérias jornalísticas é o cruel sensacionalismo que a violência fomenta, estamos formando crianças, jovens, famílias, senão também violentas, ao menos amedrontadas e, por isso, paralisadas diante de qualquer expectativa de transformação. Nossa ‘mídia’ é especializada em criar e alimentar o parasita cínico da inércia, fruto de uma profunda decepção do ser humano com o seu semelhante.  

Não tenho ilusões a ponto de imaginar que Fátima Bernardes chegue a ter uma total compreensão de tudo isso que agora comento. Não quero, aqui, lhe dirigir quaisquer elogios ou considerar qualidades que, na verdade, não sei se ela merece ou se as tem. Nem mesmo vou aconselhar que dêem audiência ao seu novo programa − o qual, no frigir dos ovos, passa num horário bem infeliz, talvez de caso pensado para que não seja visto por tantos assim, contanto que renda o suficiente para manter-lhe os patrocínios.

De todo modo, é reconfortante saber que, pelo menos em algum horário da tevê aberta, poderemos ver (se o quisermos) os sinais de um Brasil melhor, onde há gente que faz diferença, que acredita no bem, que luta e se esforça para realizar coisas interessantes, bonitas, de alcance verdadeiramente cultural e espiritualmente benéfico: um Brasil (e, por extensão, um mundo) que não seja feito só de celebridades meteóricas e de vazio de alma; que não seja feito só de supérfluos e descartáveis, mas de ‘humanidades’ passíveis de reciclagem. Um mundo em que o lúcido e o lúdico possam andar, com afeto e com ritmado progresso, de mãos dadas. 

Acho que te entendo, Fátima. É melhor veicular o que há de bom, divulgar que ainda há arte e beleza nesse mundo, e que a humanidade, em sua força ou fraqueza, em sua coragem e em seus medos, em sua miséria ou grandeza, sim, vale a pena! E que não seja só pão, nem só circo: a masseira e o picadeiro como objetos de aprendizado e de crescimento.

Valeu, Fátima. Deus (caso você creia) a conserve neste bom propósito, viu? 

                   

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