FRANCISCO DE ASSIS SERIA HOMOFÓBICO? – Texto de Anderson Dideco.

fransciscoMeu assunto era outro. Entretanto, há certas colocações que se fazem nas redes sociais que mexem, por assim dizer, com meu brio de cristão católico. Não dá pra passar por cima de tais opiniões como se fossem (e são) apenas fruto de ignorância pessoal. E antes que me crucifiquem, esclareço que uso o termo ‘ignorância’, aqui, somente pelo seu sentido imediato, denotativo, de ‘desconhecimento de algo’. Ninguém pode, de fato, ser inculpado por desconhecer a verdade. Mas, neste tempo em que simples opiniões tomam proporção de verdade absoluta, ao serem amplificadas pelo alcance complexo e imprevisto dos meios cibernéticos, faz-se necessário que se eleve ao menos uma voz que corrija alguns pensamentos equivocados que terminam por influenciar, negativamente, a chamada opinião pública.

Trata-se de uma discussão promovida acerca da figura de São Francisco e a leitura indevida que deste santo fazem alguns movimentos pró-gays: pensam tê-lo como exemplo, mas não seguem, nem de longe, seus ensinamentos! Fazem do santo de Assis uma figura caricata e romantizada, atribuindo-lhe um amor ‘boboca’ às criaturas, no qual não entraria o menor resquício de compromisso. Seria, segundo essa visão, o contrário de um cristão: uma espécie de ‘hippie’ alienado e inconsequente.

Ora, basta conhecer um pouquinho mais do que a (muito repetida e pouco meditada) Oração de São Francisco para saber que não é esse o caso. Aliás, quem medite realmente aquela oração – que para muitos será a única referência ‘espiritual’ que têm deste santo – verá porque afinal São Francisco é considerado o santo que em vida mais se aproximou de Cristo, seu Mestre. Para quem queira se iniciar numa meditação mais aprofundada deste famoso escrito, sugiro buscar neste mesmo blog o texto intitulado “São Francisco: oração revisitada”, onde poderá encontrar subsídio para uma melhor compreensão da mesma.

Mas voltemos ao foco. Um aplicativo católico postou numa rede social uma ‘charge’ onde São Francisco, ao pronunciar um trecho de um discurso de sua autoria, é tachado por um homossexual de ‘homofóbico’. Eis o discurso em questão: “Todos aqueles que não vivem em penitência, que servem ao MUNDO com seus CORPOS, com os desejos da CARNE, são enganados pelo DEMÔNIO, de quem são filhos e cujo trabalho fazem.” (O grifo não é nosso, mas da própria charge; e o texto, já se disse, proferido pelo próprio São Francisco.)

A esta proposição, uma participante da rede, que logo de cara se diz “Católica” – “tento fazer o bem, vou à missa, oro de manhã e à noite (por vezes, de tarde, também), tento ser uma pessoa melhor a cada dia…” –, considera, no entanto, um “exagero” e diz não conseguir (passo a ela a palavra:) “concordar… com a demonização de alguém que apenas nasceu diferente. São como deficientes [ela o disse!], têm que ser respeitados. Não é uma escolha, eles não escolheram amar pessoas do mesmo sexo (ok, alguns – poucos – escolheram, não é desses que eu falo, mas sim dos que já nascem assim, que são assim por uma questão biológica – ou mesmo daqueles a quem certos traumas da vida levaram a isso).”. E ela continua:  “Da mesma forma como Jesus aconselhou os pecadores, mas não os demonizou. Ao contrário: amou os pecadores. Não consigo concordar com esse estigma da Igreja, que não foi dito por Cristo, mas sim pelos Homens.”

Aqui já se apresentam alguns erros, aos quais tentei argumentar na própria rede, respondendo-lhe: “Jesus amou os pecadores, mas pregou a conversão. Aos que perdoava, também dizia: ‘Não peques mais!’. Quando elogia as ‘prostitutas e publicanos’, dizendo que estes precederiam, no Reino dos céus, aos fariseus hipócritas, explicava logo em seguida (é que só se lê da Bíblia o que interessa, não é?): ‘Por que eles se converteram à voz de João Batista’ – vale dizer: à voz daqueles homens que anunciam em Seu nome. Assim, a Igreja ama os pecadores e os convida à mudança de atitude e de pensamento.”.

Um erro fundamental é esse que procura desassociar a Igreja de Cristo, porque ignora (mais uma vez o termo!) que Uma não existe sem o Outro (e vice-versa!), que são Corpo e Cabeça inseparáveis, indissociáveis. Desse erro, provêm diversos outros, que extrapolaria o objetivo do texto enumerar aqui. E a outra ‘confusão’ vem da incompreensão de que Deus ama o ‘pecador’, sim, mas – sendo Santo – não pode jamais amar o pecado; e que é justamente porque ama aquele pecador que deseja sua conversão e salvação.

Nossa desinformada irmã prossegue na sua defesa eloquente da ‘sua’ verdade. Ela afirma: “Muitos homens são gays e se recusam a assumir. Se apaixonam [palavras dela!] por outros homens e lutam contra isso com todas as forças que têm. Chegam a namorar e até casar com mulheres (conheço casos concretos), porque não querem aceitar… outros até, católicos, que viram sacerdotes, só para fugir e não por vocação. É uma luta enorme. Não temos que demonizá-los, nem a quaisquer pecadores, mas sim que orar por eles.”

Mas minha resposta também prossegue: “Quem, como dizes, não ‘escolheu’ sentir atração por pessoas do mesmo sexo, pode, no entanto, com sua liberdade, ESCOLHER não dar vazão a esse apetite da sua carne. É que o mundo em que vivemos ENDEUSA o sexo, dando-lhe mais importância do que na verdade tem, e por isso acha um absurdo falar em castidade.”

O CIC (Catecismo da Igreja Católica) ensina que os homossexuais devem buscar a castidade, pois o pecado estaria em ‘consentir’ e não em ‘sentir’ esse tipo de atração (palavra essa, a meu ver, mais condizente do que ‘paixão’, embora em sentido cristão se possa dizer que devemos lutar contra nossas ‘paixões’, querendo aí englobar tudo aquilo que nos apega à carne e nos separa do espírito).

Disse ainda à minha equivocada amiga: “Todo católico, para ser digno de ser assim chamado, precisa COMUNGAR de todas as crenças defendidas pela Igreja a que diz pertencer, sob o risco de ouvir, no final da vida, o por ninguém desejado julgamento de Jesus: “Não vos conheço!”. É comum ouvirmos que a justiça de Deus não abole Sua misericórdia. Mas a recíproca também é verdadeira: a misericórdia não abole a justiça de Deus, e Deus não seria justo se tratasse do mesmo modo quem busca (com lutas, sem dúvida!) cumprir suas leis e quem simplesmente as ignora. Seremos julgados (é doutrina da nossa fé) segundo nossas ESCOLHAS, uma vez que Deus nos deixou livres para fazê-las.”.

Não acho que dar ao pecado o seu justo nome seja ‘demonizar’ ninguém, muito ao contrário: creio na doutrina da Reconciliação que prevê que ‘pecado confessado é pecado perdoado’, e sou grato por isso, porque muitas vezes precisei e ainda precisarei dessa graça. Alguém, mais entendido do que eu em psicologia, poderá, também, corroborar minha opinião de que, quando verbalizamos as coisas, elas entram no âmbito da ‘consciência’ (toda a psicanálise baseia-se nisso, até onde entendo); é portanto “a verdade” que (sempre) “nos libertará” .

Sei que estarei sendo polêmico e possivelmente comprando uma briga sem tamanho. Pra não ficar a impressão de que discordei de tudo o que a pobre menina disse, concordo com ela que devemos orar por todos os pecadores (a começar por nós mesmos). Só resta o questionamento: rezar exatamente com que intenção? De que vivamos bem felizes nesse mundo, fazendo o que queiramos, sem sermos ‘discriminados’ ou ‘incompreendidos’, mesmo que nossas escolhas sejam contrárias à lei de um Deus que quer o nosso bem? Ou orar, enfim, pra que nos convertamos, adequemos nossas decisões e nossas vidas aos preceitos divinos que podem nos alcançar a salvação eterna? 

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