AS MUITAS FACES DA MÃE – Texto de Anderson Dideco.

mãe mariaMaria, Mãe de Jesus.

Maria acolheu em seu coração o anúncio do Anjo, do mesmo modo como, um dia, ali guardaria e meditaria as palavras daquele Filho, Verbo gerado em seu ventre, o qual se abre à vontade do Pai. Ao pronunciar seu “Faça-se”, renova toda a Criação, fazendo seu o “Faça-se” do Criador. Se o primeiro homem é moldado no barro, e a um sopro se torna vivente, o homem novo se gera no barro de sua humanidade e de sua humildade: no “húmus”, na terra fecunda de Maria, soprada pelo Espírito Santo, se molda o Verdadeiro homem, Cristo Jesus, que se tornando carne não diminui Sua condição de verdadeiro Deus.

 

Maria Amor.

Como é possível que, sendo Deus Amor, fosse gerado num ventre feito de outra matéria que não Amor? Assim é Maria: imagem de Seu Filho, por graça antecipada, por privilégio concedido pelo próprio Deus. Ela, Imaculada, para gerar, sem mácula, o Perfeitíssimo. Ela, tornada toda pura, porque Aquele que vai trazer dentro de si é a fonte de toda pureza. Bela e impecável, concebida sem pecado, porque o Fruto de seu ventre é quem concebe a vitória sobre o Pecado e todo mal. Deus a concebeu para conceber o Inconcebível – “não gerado, não criado, mas consubstancial ao Pai”. O Amor do Pai que gera o Filho o faz “em” Maria. 

 

Maria criança.

Esperada com o ardor da fé pelo casal Ana e Joaquim, essa criança lhes será dada de maneira miraculosa. Maria nasce predestinada a vencer a esterilidade: primeiro, a de seus próprios pais, para em seguida assumir sobre si a “estéril” humanidade, que se torna fecunda em seu ventre acolhedor. Desde sempre a escolhida (ainda que ela mesma não o saiba), Maria sente, bem nova, o chamado à santidade, e responde generosa, dedicando sua vida ao templo de Deus. Da mesma forma que, mais tarde, dedicará todo seu amor para, em si, edificar o Corpo de Cristo, novo Templo da nova Aliança, que nasce Ele próprio criança.

 

Maria esposa.

Prometida ao carpinteiro José, como toda jovem judia, Maria espera realizar a vontade do Senhor na simplicidade de um lar bem estruturado, no amor e na fidelidade. Não conhece ainda os desígnios de Deus a seu respeito, mas respeita as leis de seu tempo com alegria, e verdadeira entrega. Faz seus planos, sonhadora, mas estará disposta a abrir mão de sua vontade pequenina em favor de um plano muito maior: o plano da Salvação, de que ela será a “matéria prima” nas mãos do Oleiro. E, porque se lança corajosa nos braços do Senhor, Ele não a abandona: também o justo José faz parte de Seus planos e a acolherá em sua casa. 

 

Maria serva.

A primeira atitude de quem foi tocado pela Graça deve ser o serviço. Assim nos ensina a Virgem Maria: tão logo se vê agraciada com a escolha de Deus para ser a mãe do Salvador, longe de se refugiar no comodismo de sua nova e privilegiada condição, põe-se, ao contrário, a caminho para servir a sua prima Isabel, idosa e gestante. Nada a pode deter: nem mesmo a distância que as separa, ou as dificuldades do trajeto montanhoso a enfrentar, nem sequer sua mocidade ou sua própria gravidez serão desculpas para negar ajuda a quem dela precisa. Vai às pressas, pois sabe que aquilo que se retém não é nosso; só o que se dá.

   

Maria humilde.

O humilde não é quem se faz menor do que é, por conveniência (ou até por vaidade). O verdadeiro humilde sabe da matéria de que é feito, mas reconhece quantos dons recebeu, de graça, do Amor de Deus. E, porque não se fia nos dons, usurpando-os para si, mas confia no “Doador” dos dons, sabe também fazê-los render em frutos para a glória do Senhor e pro bem dos irmãos. Maria nunca se escondeu atrás de uma falsa humildade: antes exaltou, no Magnificat, as “grandes coisas” que o Poderoso fizera em seu favor, e se reconheceu digna de ser chamada bendita por todas gerações, sem cair na soberba. Fez de seus dons um Dom. 

 

Maria cuidadora.

Com que cuidados Maria terá cercado Isabel, até que chegue a sua hora! Com que zelo irá, ela mesma, envolver em faixas seu pequenino, quando este nascer em meio à escuridão e o frio de uma gruta, já que a cidade que os recebe, a ela e ao esposo José, não tem um lugar apropriado para os abrigar. É no aconchego de seus braços que o Menino Deus adormece, antes de ter por berço uma manjedoura. Deus Pai sabe porque a escolheu, e a ela confiou Seu bem mais precioso: o Filho amado, em quem pôs Sua afeição. Sem notar, a jovem mãe cuida com carinho de toda a humanidade, ovelha que o Bom Pastor também levará ao colo.

 

Maria dos dias difíceis.

Gabriel anunciou a Maria a vinda de um Rei vitorioso, assentado num trono de glória, cujo reinado não teria fim. Ela disse sim. Simeão, no Templo, reconhece maravilhado o Messias, mas profetiza para Maria uma espada de dor, que transpassaria a sua alma. Ela disse sim. José a levou a Belém, em lombo de burro, pra gerar seu filho numa estrebaria. Maria disse sim. Em seguida, a carregou ao Egito, terra pagã, para esconder o recém-nascido da fúria de Herodes. Maria, outra vez, diz sim. Na traição, na prisão, na humilhação, na dor, no Calvário, na cruz, na paixão, na morte, no sepulcro, ela dirá sim. Maria crê na Ressurreição.

 

Maria das noites sem descanso.

Se a Mãe teme que a sanha de um rei assassino a separe do Filho a ela confiado; se a assusta perder o Filho de Deus, por distração, no caminho de uma peregrinação; quanto mais não sofrerá seu coração se esse Filho, humanado, aceita assumir sobre Si as dores e as doenças de Sua gente? Que febres, que enfermidades essa Criança divina terá enfrentado, antecipando a dor do Calvário sobre seu Corpo pequenino, antecipando as ofensas que Seu Corpo eucarístico viria a sofrer, nos sacrários das Igrejas, pelos séculos afora? Ultrajes e heresias doem, desde já, na humanidade débil que o Deus Eterno assume, em meio à noite. 

 

Maria conselheira.

Mãe do Bom Conselho, lhe chama a devoção cristã. Mas pouco se ouve a voz de Maria no Evangelho: ela antes silencia e guarda tudo o que ouve no coração. Fala uma única vez pra pedir, brevemente, e outra pra louvar, transbordante. Preocupada com a perda do Filho, O repreende, assustada, ao reencontrá-Lo. E é só. Como nos aconselha então, se não se escuta muitas palavras saídas de sua boca? É este o seu melhor conselho: “Fazei tudo o que Ele – Jesus – vos disser”. Mostra, assim, que basta ouvir o Senhor para saber como agir em cada situação que a vida nos apresente. Se falta o vinho ou a espada nos transpassa, silenciemos.

 

 Maria intercessora.

Se, em meio a nossas celebrações ou tribulações, faltar o vinho da alegria (ou do Espírito), sabemos a quem recorrer. A Mãe Maria nos ensinou a dirigirmo-nos a Jesus, com confiança e simplicidade, d’Ele esperando a solução de todos os problemas. Ensinou-nos, sobretudo, a confiar no Seu modo de atender aos pedidos. Pode ser que Ele nos peça para encher de água e carregar talhas de pedra pesadíssimas, antes de nos conceder o milagre. Há, porém, que obedecer, sem murmurar ou perder a fé. Saber esperar que a transformação aconteça, a Seu tempo. Permanecer a Seus pés. Ouvir e acolher a Sabedoria, enquanto a graça não nos vem.

 

Maria dos dias alegres.

Maria acompanhou a infância de Jesus, foi às festas de seu povo junto com Ele; O perdeu, mas O reencontrou, no Templo. Maria viu Jesus aprender o ofício de seu pai adotivo. Ela viu seu Filho pregar o Evangelho e ser seguido por muitos. Ela o seguiu também, mesmo oculta na multidão, sem receber prerrogativas por ser a Mãe do Messias. Viu Jesus realizar Seus milagres: multiplicar pães e peixes, curar doentes, libertar possessos, ressuscitar os mortos. Decerto, foi quem teceu a túnica sem costura que envolvia o Corpo de Seu Filho na hora da Paixão, quando Ele não a quis deixar sem amparo, e a entregou ao discípulo amado.

 

Maria bondosa.

Aos pés da cruz, Maria é o reflexo da bondade. Bondade que Seu Filho pôde entrever em seus olhos quando, caído no caminho, encontrou Sua mãe. A bondade dela O encorajou a prosseguir: sabia que faria novas todas as coisas se aceitasse sofrer em remissão da maldade dos homens – aqueles mesmos que o feriam e maltratavam. Ela assistia a tudo, calada. Podia ter-se revoltado contra os carrascos do Seu Filho, os algozes do Seu Deus. Não o fez. Aceitou. Suportou. Com bondade, decerto os amou, como Jesus os amava e se entregava por eles. Vivia o Seu ensinamento: “Amai os vossos inimigos”. Prova de um coração bom.

 

Maria do silêncio.

No silêncio de seu ventre, se engendrou a Palavra da Salvação. No silêncio de seu coração, se guardou a Vontade soberana e sábia do Pai. No silêncio de sua vontade, cumpriu-se o desígnio de Deus. No silêncio de uma noite escura, brilhou a Luz que veio ao mundo. No silêncio da humanidade decaída, o olhar piedoso da Mãe vem nos socorrer. No silêncio do Cenáculo, ela aguarda, com seus filhos adotivos, o cumprimento da Promessa: o pleno derramamento do Espírito, para gerar ainda uma vez o Corpo de Cristo – a Igreja – do mesmo modo misterioso como, um dia, Deus tomou forma humana no silêncio de seu seio.

 

Maria ternura.

Com que terno olhar a Mãe guarda o berço de um Filho que adormece. Ela O contempla, embevecida, e O recobre com a manta, como se pudesse, com esse gesto, protegê-Lo de todo mal que há no mundo. Se necessário, permanecerá ali, a Seu lado, enquanto a noite rondar, como um leão a rugir, procurando a quem devorar. As noites se sucederão sem que a Mãe perceba que o Filho cresceu, envelheceu, já se despede da vida. Com o mesmo olhar, essa Mãe O protege ainda, como se pequenino fosse, indefeso. Pudesse ela, venceria a incerteza dos tempos com sua ternura eterna, envolvendo-O como antes em seu manto. Agora e na hora de nossa morte. Amém.   

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