SILÊNCIO, POR FAVOR – Texto de Anderson Dideco.

silêncioPor favor, não façam muito barulho, porque o tema de hoje é o silêncio. Vou precisar do auxílio de todos. Antes de mais nada, desliguem seus celulares. Não queremos que a solenidade deste momento seja interrompida, maculada bruscamente pela algazarra sem noção de toques musicais ou ‘engraçadinhos’. Sim, eu disse solenidade, pois trata-se de um blog com intenções espirituais. É, portanto, sagrado este lugar em que seus pés adentram. Retirem, por favor, suas sandálias.

Para não dizerem que estou exagerando, é o próprio Senhor que nos exorta, pela boca do profeta Zacarias, na liturgia de hoje: “Silêncio! Toda carne emudeça diante de Iahweh!” (Zc 2, 17). Vejam que mantive o itálico, com que destaco as citações bíblicas, mas evitei o negrito, para não soar excessivo nesta hora que nos pede gravidade. É preciso que mantenhamos nossos pés no chão, em contato com o barro de que fomos criados, perante a presença do Senhor, que nos visita, na brisa desta tarde.

Neste dia, em que celebramos a Apresentação de Nossa Senhora, é propício discorrer (discorrer não digo; antes, dizer devagar) sobre essa que é sem dúvida a Sua maior virtude, de onde Lhe brotam todas as demais: a virtude do silêncio, que o Evangelista Lucas descreve com palavras singelas: “guardava todas as coisas, meditando-as em seu coração.” (Lc 2, 19.51b). 

Hoje em dia é difícil o silêncio. Perdemos − lamento concluir que talvez irremediavelmente − o sentido do sagrado. Já não separamos nada para Deus: nem tempo, nem espaços, muito menos o nosso coração. A Virgem, que segundo a celebração de hoje pretendeu um dia consagrar-se inteira ao Senhor, soube silenciar antes de tudo suas vontades humanas (e lícitas, é bom que digamos!) para gerar, no silêncio de seu ventre, o Verbo encarnado, mostrando assim que só mesmo no nada, no silêncio absoluto do ser pode-se gerar a Palavra que liberta.

Estamos acostumados (ou nos acostumando a passos largos,  sem qualquer  possibilidade de interrupção) à voragem das metrópoles contemporâneas, à fúria veloz  e automobilística das estradas de rodagem, à sanha insaciável das novidades cibernéticas, impossíveis de acompanhar. Tornamo-nos alimento nos banquetes pantagruélicos do deus Cronos − tais como espantados carlitos engolidos pelas rodas e engrenagens da modernidade.

Já nos é penoso ‘desconectar-nos’: chegamos em casa (ou saímos à rua) e ligamos os aparelhos, de vídeo ou de som, inimigos da pausa (que, no entanto, os músicos o sabem, também faz parte da harmonia musical). A internet, de uma útil ferramenta de trabalho, trasformou-se num monstro de sugadores tentáculos, que fica 24 horas a nos solicitar, invadindo-nos e preenchendo de desassossego o que devia ser o aconchego do nosso lar e os trajetos coletivos.

Somos incapazes de silenciar. O brado retumbante das propagandas, ensurdecendo-nos todos os sentidos; o clamor incessante das modas, das mídias, das moedas; modulações diversas de volumes inadequadamente equalizados enchendo os ares noturnos, antes convidativos ao sono e ao repouso; decibéis demasiados,  causando distorções e microfonias em nossa um bocado incomodada  (ou inexistente) paciência.

E quanto a silenciar nossos desejos, nossos anseios, nossas expectativas e planos, nossos projetos e vontades? Parece-nos improvável, ante um mundo que veicula o prazer a qualquer preço, a satisfação imediata, o lucro rápido e fácil, a (pretensa, e que portanto antecipa a tensão) liberdade de fazer o que se quer, sem medir consequências e conveniências, liberdade desgovernada que não termina nunca, nem mesmo onde comece a do outro, que sequer enxergamos − a não ser como obstáculo a ser transposto.

Assim, nessa realidade de telefones atendidos em lugares incovenientes (em geral, para falar de assuntos que pertenceriam melhor ao âmbito da privacidade); nesse ambiente de seres desabituados a ouvir seu semelhante, mais do que querer ser ouvido; nessa situação de fechamento ao que é alheio a meu egocêntrico ‘eu’; nessa condição de embrutecimento, causado tanto pelo excesso de informações como pela falta de perspectivas − introduz-se o elemento nocivo da incomunicabilidade, sob  o sutilíssimo disfarce de globalização.  

Só o silêncio nos abre, verdadeiramente, à possibilidade da comunicação. Só no silêncio se engendra (como em Maria) o germe da Palavra que transforma, que faz diferença,  que permanece. Sem o silêncio, o que nos resta é dispersão − como na balbúrdia de Babel. Resta-nos a discórdia, e superficialidades de perfil. Só no silêncio, de fato, temos coragem de nos encarar de frente − uns aos outros e a nós mesmos, no espelho do autoconhecimento.

O silêncio não é um mal. É necessário. O silêncio produz a paz interior que tanto buscamos. O silêncio nos ajuda a contemplar novos horizontes, muda as nossas perspectivas. Se falássemos menos, nas filas e salas de espera, ao anteceder dos espetáculos e celebrações, encontraríamos espaço em nosso interior que poderia, afinal, ser morada do Absoluto. Procuramos tanto nos relacionar que ficamos relativos, e nossos relacionamentos cada vez menos afetivos e pouco efetivos: só enchimento, paina sem consistência.

Se silenciássemos, nossa oração teria mais fruto. Falamos demais, seja pra pedir ou pra reclamar, pra desabafar ou pra murmurar, que acabamos abafando a voz do Espírito Santo − que quer, Este sim, orar em nós como convém, pedir a Deus por nós o que Ele sabe que necessitamos, o que Deus mesmo quer nos conceder, para o nosso Bem. Por não valorizarmos o dom do silêncio, não nos predispomos aos dons mais elementares − como o dom de orar em línguas, por exemplo. Muitos não o recebem porque se encontram  obstruídos  pelo acúmulo de palavras desperdiçadas − e, o que é pior,  certamente dispensáveis.

Até o jejum é uma forma de silêncio (silêncio corporal) que não sabemos gozar. Aproveitamos pouco deste (e de outros) exercícios de mortificação, que nos predisporiam melhor ao mistério da Eucaristia: o Verbo que se fez carne, ocultando/desvelando a Verdade por meio do silêncio inconsútil de sua Presença no Pão consagrado, silenciosamente recolhido por trás das portas dos sacrários, em nossas igrejas. Mas, mesmo os templos, que deveriam ser lugar de oração, de silenciosa contemplação, de meditação mística profunda, perdem-se tantas vezes nas barafundas de flashes de turistas desavisados e irreverentes.

E a carne, pouco mortificada, não se prepara com suficiente dignidade para a morte, quando seremos, sem apelação, envolvidos pelo Silêncio final. Aí, nenhuma palavra poderá mais ser dita em nossa defesa, pois estaremos diante do fato consumado de uma vida inteira escrita com palavras, quem sabe vãs, quem sabe imprudentes; e por estas mesmas seremos julgados.

Daí, por causa da Palavra eterna que nos dará o devido destino de acordo com nossas obras, deve-se derivar a compreensão da necessidade do silêncio. Que aprendamos, desde agora,  a valorizar e praticar o culto ao silêncio, enquanto o Silêncio definitivo não nos alcança. Porque, depois que no silêncio da hora obscura descer sobre a terra a Palavra derradeira, só restará aquilo que o silêncio tiver conseguido fecundar em nossos corações.           

   

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