AUSÊNCIA QUE HABITA A PRESENÇA – Tecendo a esperança – Texto de Dominique Ponnau.

Bordando-Pilar SalaJesus, ‘corpo glorioso’, verdadeiro corpo vivo, mas de uma vida totalmente misteriosa, permanece quarenta dias com seus discípulos depois de sua ressurreição, comendo com eles, deixando-se tocar por eles, ora desaparecendo, ora manifestando-se. Depois ele se vai definitivamente. Sobe ao céu, dizendo-lhes que se recolham em prece à espera do Espírito Santo. Dez dias mais tarde, em Pentecostes, enquanto oram no Cenáculo, o espírito irrompe, sob forma de línguas de fogo, e os enche de uma alegria e de uma força tais que eles proclamam no Templo, em toda Jerusalém, na Judéia, em Samaria, na Galiléia e para além dos mares, sob o impulso desse Santo-Espírito, que Jesus ressuscitou.

A Ascensão e o Pentecostes

É o tempo da espera sem esteio, é o tempo da ausência, que no entanto habita a Presença, mas na noite, a noite da única esperança. “Ver o que se espera não é esperar”, diz o apóstolo (Romanos 8,24). A esperança clareia a noite pela noite. A Ascensão é o tempo em que ele desapareceu, o tempo que se estende até ameaçar romper-se, até romper-se, é o tecido de uma esperança dele que pode a qualquer instante dilacerar a desesperança. O tecelão da Esperança é o Espírito. Foi ele quem a teceu, é ele que a recose, a remenda. Ele que, às vezes, milagrosamente, a renova em vestido de primavera.

Pensa-se que os cristãos crêem que está tudo acabado. Cristo não o disse, no momento de morrer? “Consummatum est”, “Tudo está consumado”, consumido, assumido, resumido, acabado? Uma flor totalmente nova – ele próprio – sobre o humo de sua morte, pode nascer enfim, para sempre, e nele, para sempre, para sempre nova, a humanidade, e, na humanidade, “a criação em expectativa [que] anseia pela revelação dos filhos de Deus” (Rm 8,19).

Logo, sim, na morte e na ressurreição de Cristo, para um cristão, “tudo está consumado” (João 19,30). Tudo está consumado, mas tudo ainda está por fazer! Pois Cristo morto, ressuscitado, visitando seus discípulos durante quarenta dias, às vezes visível, às vezes invisível, às vezes presente, às vezes ausente, os ensinava a viver a partir de então numa alegre e fiel viuvez. Viuvez não dele – “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28,20): viuvez de sua evidência.

O tempo que se abre quando Jesus sobe ao céu é o tempo de uma travessia da história sobre um mar como que sem margem, de uma barca a que o sopro de Deus, o Espírito, infla as velas, inspirando aos barqueiros, no coração da tempestade e da noite, a alegria interior, frágil, fugaz, indomável, de quem espera, acredita que “o Primogênito entre os mortos” vencerá em todos a morte nele vencida.

in Figuras de Deus – a Bíblia na arte – Ed.Unesp, 1a ed. 1999, págs. 156-7

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