SÃO FRANCISCO – ORAÇÃO REVISITADA – Texto de Anderson Dideco.

Sim, você vai me dizer, eu já conheço a oração de São Francisco. Afinal, quem não a conhece? Eu mesmo a sei de cor, você poderá acrescentar. Rezo-a todos os dias, quem sabe durante a comunhão, pedindo a Jesus que me dê os mesmos sentimentos de Seu coração – que decerto moviam o de São Francisco, quando a compôs.

Mas, saber de cor é saber de coração? É ter, de fato, no coração as mesmas disposições interiores que impulsionaram tais palavras?

Vamos conferir.

“Senhor, fazei-me…”. Começamos daí. É Ele o Senhor. Sem Ele nada podemos fazer – segundo Ele mesmo o disse (cfr. Jo 15, 4-5). É Ele que, tendo-nos criado, pode fazer novas todas as coisas em nós. Pode fazer de nós o que quiser. Estamos dispostos a isso? Confiamos integralmente na bondade de Seus desígnios, na sabedoria de Seus planos para nós? Rendemo-nos a Seu querer? Ou queremos ser senhores de nós mesmos e fazer o que nos der na veneta? Queremos que Deus nos faça, sim, só aquilo que nos convém e interessa – o ‘deus criadinho’?

“… fazei-me instrumento…”. Eis o que devemos pedir. Eis o que devemos ser. Instrumentos não se tocam sozinhos: precisam de mãos destras, virtuosas, que os façam ressoar. Até os não musicais, os de trabalho: só realizam sua tarefa se houver a agilidade de uma mão operosa que os saiba utilizar (tornar úteis). Somos servos inúteis, Jesus nos recorda. Não fazemos nada além do que devíamos fazer – e ainda assim, nem sempre com a pureza de intenção exigida, necessária. Ou queremos, ao contrário, instrumentalizar os outros? Fazê-los trabalhar por nós, enterrando nossos talentos, empurrando-os com a ‘barriga’ alheia?

“… instrumento de Vossa paz”. É Ele o Príncipe da Paz. Se permanecermos Nele, estamos em paz, somos os bem-aventurados promotores da Paz. Se não temos, porém, a paz em nós – como distribuir o que não possuímos?  Como  fazer soar a paz nos corações dos irmãos, se vivemos em guerras intestinas, em conflitos e litígios constantes, até contra nós próprios? Contra os semelhantes – se não é contra irmãos de carne que temos de lutar, mas contra os espíritos do mal espalhados nos ares – ensina São Paulo.

“Onde…”. Onde? Em que lugar deve-se dar nosso apostolado? É quase como se perguntássemos outra vez a Jesus, como no Evangelho: “Quem é o meu próximo?” Faze-te o próximo daquele que necessita, responde o Mestre. Vai aonde ele está caído e levanta-o, sustenta-o, socorre-o, orienta-o.

Vai “onde houver ódio… onde houver ofensa… onde houver discórdia… onde houver dúvidas… onde houver erro… onde houver desespero… onde houver tristeza… onde houver trevas…”. Não fiques aí parado. Não te escondas, não te omitas. Não fujas. Não tenhas medo de te emporcalhares na ‘sujeira’ dos outros, de te tornares impuro; Cristo te purifica, se te sujas para buscar quem está na lama da impiedade, do erro, da ignorância. E purificará a este também. É esta a dinâmica da caridade, que afasta uma multidão de pecados. Um fósforo riscado apaga logo, se não se movimenta o palito (a lenha) que o pode manter aceso. A caridade esfria, se paralisada nos bancos das Igrejas – se não gasta a sola dos sapatos.  

“… que eu leve…”. Sim, é você o próximo do teu irmão. És tu, sou eu que temos que levar a graça que recebemos, para dá-la também de graça. Não as retenhamos em nós. Há mais alegria em dar do que em receber – garante-nos outra vez São Paulo. A quem muito foi dado, muito será cobrado: foste me visitar, quando prisioneiro ou doente? deste-me de comer, quando Eu tinha fome? deste-me de beber, quando Eu tinha sede? acolheste-me, peregrino, e deixaste duas moedas (as de menor valor, que fosse!) ao hospedeiro, para que cuidasse de mim e Eu te recompensasse na volta? Levaste a minha Palavra, a minha Boa Nova a toda criatura?

“… eu leve o amor… o perdão… a união… a fé… a verdade… a esperança… a alegria… a luz…”. Somos agraciados: recebemos muito, todos os dias. Ninguém é tão pobre que não tenha nada a dar. Somos todos (os batizados) ricos da Graça, repletos de virtudes a partilhar. Somos todos portadores, detentores, sustentáculos de uma riqueza inesgotável, que precisa ser dividida com generosidade. Somos membros da Igreja de Cristo, o Seu Corpo Místico – e os membros mais fracos são os que precisam ser cuidados com maior zelo. Damos o que temos. Temos o que dar. Não podemos fingir que não sabemos. Deus o sabe: investiu muito em nós; quererá seus bens duplicados, multiplicados em Seu retorno. E levá-lo a quem? Ninguém é tão rico que não precise receber.

“Ó Mestre, fazei que eu procure mais…”. Que eu Te procure mais! Que procure mais Teus ensinamentos, Mestre que és! Que eu procure, antes o Teu Reino e a Justiça desse Reino – e tudo mais me será acrescentado. Mas que eu procure isso sem segundas intenções, sem pensar em compensações. Minha recompensa seja conhecer-Te, seguir-Te, amar-Te – sempre mais. Mais que a mim mesmo, mais que tudo que há aqui. Sejas Tu sempre mais que eu – que Tu cresças e eu diminua, como queria o João Batista. Como requer o meu Batismo. Que eu deixe Deus ser Deus – mais que tudo. O meu Tudo.

“… que eu procure consolar… compreender… amar…”. Como sou consolado. Como Deus me compreende (e me perdoa). Como Deus ama: porque É AMOR, diz São João. Que eu seja. Que eu também seja: consolo, compreensão, amor aos que de mim se aproximarem. Que eu seja o DEUS QUE É para aquele que O não conhece. Nem que eu seja o único Evangelho que ele, talvez, vá ler. Que a minha vida reflita a Vida de Deus, que está em mim. Com gestos concretos, com atos de amor, atitudes de acolhimento e misericórdia. Com todo o meu ser: coração, alma, pensamentos, forças. Amar a Deus sobre todas as coisas amando ao próximo como a mim mesmo. Melhor: como Ele me amou (e ama): dando a vida!

“… mais que ser consolado… compreendido… amado…”. Seja eu desprendido de toda má intenção, de todo interesse escuso, de todo egoísmo, enfim. Mesmo que eu não receba em troca, mesmo que não me valorizem, mesmo que não reconheçam o que eu faça… que eu o faça. Que eu me doe, doa a quem doer. Que eu me dilacere, se preciso, e sempre que preciso for. Que eu me dilapide, se necessário, se não restar alternativa. Ou mesmo que reste: que eu não rasteje, implorando, fazendo-me vítima das circunstâncias, mas me prostre ante a grandeza de Deus, humilde, manso, de coração. Adorador. Não adulador.

“Pois é dando… perdoando… morrendo…”. Pois é esse o modelo a seguir, pois é esse o exemplo deixado pelo Filho de Deus, que se fez homem para nossa Salvação. Que se faz Carne para o nosso sustento, nosso alimento de eternidade. Se Ele se dá, e perdoa, e morre, e morre perdoando aos que o matam… Se Ele renova a cada dia Seu único e perfeito sacrifício na cruz, sobre os altares do mundo… Se Ele aceita doar-Se a nós, pecadores, indignos… quem somos nós para não aceitarmos as dificuldades, as dores, as ofensas, as mortificações que nos exige viver o amor? Como pedir que nos abra a porta do Paraíso, quando chegar a nossa hora – se não O imitamos agora?

“… se recebe… se é perdoado… se vive para a Vida Eterna”.  Recebe-se o cêntuplo aqui na terra (com perseguições), o perdão de nossas misérias e faltas, e a graça de uma eternidade na presença Divina, Una e Trina. Eis nossa fé, nossa esperança. Pra quem saiba fazer de sua oração mais que uma repetição de palavras vãs. Para quem saiba torná-las Vida, assim na terra como no céu. Para quem as inscreva no Livro da Vida com letras de sangue. Derramado. Por amor. “AMÉM.”

E agora, eu pergunto: Você conhecia, de fato, a oração de São Francisco?

E te questiono, ainda: o que diz esta oração A TI? (Deixem seus comentários.)

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