“VIVE-SE COMO SE REZA” OU OS SANTOS DOUTORES – Texto de Anderson Dideco.

Santo Agostinho, em seu tempo, disse tudo o que havia pra ser dito. Até aquilo que ele não disse é, muitas vezes, erroneamente atribuído a ele − de modo que passa por ser de sua autoria; e a sua fama aumenta.
Digamos que a sabedoria de suas máximas estaria para o cristianismo assim como a do rei Salomão para o Antigo Testamento.
Foi ele que disse, por exemplo, que “se vive como se reza”. Se muitos cristãos entendessem a profundidade e a veracidade desta afirmativa, talvez não houvesse necessidade de se escrever tantas palavras sobre espiritualidade − e este BLOG nem existiria, por certo.

Mas a nós, hoje, interessa uma de suas frases mais clássicas (e repetidas sem cansaço): “Estavas em mim, e eu fora de ti!” É como se dirige ao Senhor, em suas Confissões, ao tratar do tempo que passou buscando por Deus onde Ele não se encontrava.

Esta constatação agostiniana vem ilustrar a compreensão que recebi do alto ao meditar sobretudo o Salmo 26 (27), proposto pela Liturgia de dia 30/09: “Uma coisa peço a Iahweh, a coisa que procuro: é habitar na casa de Iahweh todos os dias de minha vida, para gozar a doçura de Iahweh e meditar no seu templo. Pois ele me oculta na sua cabana no dia da infelicidade. Ele me esconde no segredo de sua tenda, e me eleva sobre uma rocha. (…) É a tua face, Iahweh, que eu procuro, não me escondas tua face. (…) Eu creio que verei a bondade de Iahweh na terra dos vivos.” (vv.4-5.8b-9a.13)
Numa situação de perseguição e angústia, o salmista apela para a proteção de Deus (que, com certeza, não nos abandona) e quer esconder-se no Tabernáculo onde Ele habita − a tenda do deserto, o templo sagrado.

Também nós, deste tempo atribulado, temos essa tendência de querer “armar a tenda” no monte Tabor, tal qual Pedro na transfiguração. (cfr. Ev.:Mt 17, 1-8 e paralelos) Gostaríamos de encontrar a face do Senhor apenas na consolação e no sossego de igrejas e templos (de preferência vazios), onde pudéssemos exercitar a intimidade de colóquios espirituais elevadíssimos, que nos levassem a levitar ou coisa parecida.
Muitos buscam mosteiros e comunidades de vida consagrada nesta ilusão. Até eu, admito, caí neste erro. Santo Agostinho também − mas ele tinha a desculpa de não ter encontrado, ainda, o Senhor − e por isso o procurava nas “trevas exteriores” (ver a 1a leitura: I Ts 5, 1-6.9-11), onde o Deus que é Luz obviamente não estava.
E nós − que dizemos conhecê-Lo − por que O procuramos fora de nós?

“Estavas em mim, e eu fora de ti!” tem correspondência imediata com o “vive-se como se reza”.
Senão vejamos: estamos de verdade em Deus, quando O buscamos, por meio da oração? Ou, ao contrário, esperamos receber “coisas” de Deus − sejam elas materiais e concretas ou espirituais e “transcendentes”?
Decerto não atentamos que, ao fazê-lo, estamos buscando a nós memos, à satisfação do nosso eu e o suprimento de nossas necessidades e carências pelo Deus “criadinho”, em vez de aceitarmos nos render à vontade soberana e sábia do Deus Criador Todo-Poderoso.

Não será que a nossa oração pessoal (se existe) falha − e com ela toda a nossa existência − justamente porque continuamos “fora” de Deus, quando na verdade é dentro de nós que Ele habita? Desde o advento de Cristo, somos nós, com nosso corpo, o “novo templo da nova e eterna aliança”  − a “tenda humana”, para usar uma expressão (exata e certeira) bem ao gosto do Pe.Fábio de Melo. É em nosso interior que se deixa encontrar, se de fato o buscarmos com uma vida de intensa e sincera espiritualidade, procurando permitir que Jesus ocupe o centro de nosso ser, de nosso viver.

E não é preciso, para isso, destrinchar todos os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, ultrapassar todas as Moradas do Castelo Interior de Teresa d’Ávila, ou coisa que o valha. É muito mais simples: é um abrir do coração.
Outra doutora da Igreja, de profunda espiritualidade, a Teresinha de Lisieux, foi encontrar na infância espiritual e “no meio das panelas” o Deus que escolheu amar. É, enfim, a tão almejada sincronia entre Marta e Maria (cfr.Ev.: Lc 10, 38-42): a contemplação na ação, o ‘ore et labore’ de São Bento. Enfim: um viver “de” e “em” oração, fazendo de cada momento e movimento do dia uma oportunidade de encontro com o divino.

O barulho externo, a insatisfação com o teu trabalho ou pastoral, as dificuldades em família e em comunidade, os defeitos próprios ou alheios, mesmo a aridez mais abismal não poderão ser empecilho para o teu crescimento humano e espiritual e para experimentar a presença de Deus  − se se tornam matéria de oração! Simples assim. Vive-se como se reza, ou seja: vive-se mal porque se reza mal, e o vice-versa é verdadeiro: reza-se mal porque, ora, se vive mal. É um círculo vicioso, um dominó desencadeado em avalanche.
A culpa (portanto) não está em Deus.

Não se quer aqui dizer que não seja necessário, às vezes, o silêncio de uma conversa mais íntima, que possa redundar mesmo em alguma consolação nas dores e sofrimentos.; que Deus não esteja atento às nossas lutas e dificuldades e pronto a nos soccorrer e proteger dos perigos e inimigos. Não digo que não seja lícito buscar todo e qualquer socorro em Deus − que afinal de contas pode o que não podemos.
Mas, concluo, é preciso mais: esvaziarmo-nos de nós para deixar que Deus penetre o nosso interior, deixar que com Sua autoridade e poder (vide Evangelho de hj: Lc 4, 31-37) expulse o mal e a impureza que ocupa em nosso coração o lugar que é d’Ele − e assim, com o Senhor “centrando” a nossa pessoa, todas as etapas de nossa história serão também, de tal modo, preenchidas de Sua presença que será impossível não se alegrar na contemplação de Sua face. Não precisando, para isso, permanecer 24 horas dentro de uma igreja.

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