O IPÊ FLORESCE EM AGOSTO – Texto de Anderson Dideco.

Um ipê é uma dessas inacreditáveis belezas da criação com que podemos comprovar a existência de Deus − ou que, estupidamente, podemos ignorar, quando nos deparamos com um deles  (Deus? um ipê?) em nosso caminho.

O ipê floresce em agosto  − é o título de um romance; mas aqui nos interessa o fato mesmo de sua floração nesta augusta época do ano.

É de tamanha beleza, e os há em cores variadas (roxos, rosas, amarelos e − descobri hoje!  − até brancos) que só mesmo olhos mortiços, desacostumados de contemplar a espiritualidade por trás da matéria, poderiam desprezá-los sem prejuízo da avaliação de sua sanidade.

Já repararam? Os ipês florescem no inverno, quando todos os galhos da árvore se encontram nus, desvestidos de folhas: ali, na maior das precariedades, no cúmulo da debilidade arbórea, surgem as flores, e cobrem com sua antecipação de primavera a fraqueza antes inegável de ramos retorcidos e aparentemente estéreis.

E o Evangelho nos garante: se Deus trata assim as ervas dos campos, revestindo-as de tal riqueza que excede até mesmo o esplendor das vestes do Rei Salomão, como não nos dará também todas as coisas necessárias ao nosso sustento, se somos mais do que as árvores, simples criaturas − se somos Seus filhos?

Ao avistarmos um ipê florido, espalhando abundante a coloração de suas flores pelos gramados das praças e pelas margens dos rios de nossas cidades, e o seu fulgor a despontar sobre os montes, devemos reavaliar nossa confiança na Providência divina, e no modo contraditório de suas manifestações.

Às vezes, nos momentos de grande humilhação, em que nossos exíguos recursos humanos se mostram insuficientes para nos valer em nossas angústias; em que todo o repertório de soluções possíveis já foi gasto, deixando-nos despidos e desprovidos como uma árvore seca e agreste; em que nada mais nos resta senão esperar no Senhor, em Sua bondade e misericórdia  − é aí, então, que costuma aflorar (com a mesma condescendência com que a divindade se despojou de Sua glória para assumir nossa condição falível), é aí que se dá o estupendo, a estupefação, o estapafúrdio milagre da boa nova que corre os campos, preenchendo o que era vazio da reverberância insuspeitada da vida plena.

Como da morte brota a vitória da Ressurreição, da nossa fraqueza afinal humildemente reconhecida, hão de vingar os frutos esperados da Salvação, num borboletear primaveril de graças providenciais.

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